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SARMs: o que são, o que os estudos mostram e por que não são atalho

Vendidos como versão leve dos anabolizantes, os SARMs nunca foram aprovados, e boa parte dos frascos nem contém o que diz o rótulo.

Publicado30 out 2026
Leitura7 min
SARMs: o que são, o que os estudos mostram e por que não são atalho
Resposta direta

SARMs são moléculas experimentais que ativam o receptor de androgênio e nunca foram aprovadas como remédio. Numa análise publicada no JAMA em 2017, só 52% de 44 produtos vendidos online como SARM continham a substância. No Brasil, a Anvisa proibiu a comercialização em 2021, e o CFM proíbe a prescrição para qualquer indicação.

Neste texto

  1. O que são SARMs
  2. O que os ensaios clínicos mostraram
  3. O que dizem os relatos de quem usou fora da pesquisa
  4. O frasco nem sempre contém o que diz
  5. O que diz a lei no Brasil (outubro de 2026)
  6. Se você usa ou já usou
  7. O que tem mais evidência que qualquer atalho
  8. Como acompanhar
  9. Perguntas frequentes
  10. Fontes

O que são SARMs

SARM é a sigla em inglês para modulador seletivo do receptor de androgênio. São moléculas criadas em laboratório para ativar o mesmo receptor que a testosterona, com a ideia de agir mais no músculo e no osso e menos em outros tecidos, como a próstata. Foram pesquisadas para situações como perda de músculo em doenças graves e osteoporose. Nenhuma delas foi aprovada como medicamento até hoje, nem no Brasil nem nos Estados Unidos.

Os autores de um dos ensaios mais citados explicam a motivação original: preocupações com os efeitos da testosterona sobre a próstata levaram a indústria a buscar moléculas com ação mais seletiva. A ideia era boa no papel. Na prática, os estudos mostraram que a seletividade não é completa, como você vai ver abaixo, e o desenvolvimento como remédio não chegou ao fim.

Fora da pesquisa, os SARMs passaram a ser vendidos como uma alternativa mais leve aos anabolizantes, muitas vezes com o rótulo de suplemento ou de produto para pesquisa. Este texto explica o que a ciência sabe, sem nomes de produtos, quantidades ou formas de uso. Para entender o tema mais amplo, veja anabolizantes: o que a ciência mostra.

O que os ensaios clínicos mostraram

Os ensaios com SARMs foram poucos, curtos e feitos com quantidades controladas. Um exemplo publicado em 2013 testou uma dessas moléculas em 76 homens saudáveis de 21 a 50 anos, por 21 dias, contra placebo.

Ou seja, mesmo num estudo curto, controlado e com quantidades pequenas, a ideia de ação apenas no músculo não se confirmou por completo: houve supressão hormonal e queda do HDL. Esses são os mesmos tipos de efeito que preocupam nos anabolizantes, explicados em anabolizantes e coração e anabolizantes e fertilidade.

O que dizem os relatos de quem usou fora da pesquisa

Uma revisão sistemática de 2023 reuniu 33 estudos sobre segurança de SARMs em adultos saudáveis: 18 ensaios clínicos e 15 relatos ou séries de casos. Nos ensaios, a elevação da enzima do fígado TGP foi comum. Nos relatos, apareceram 15 casos de lesão hepática por medicamento, além de ruptura de tendão de Aquiles e rabdomiólise, uma lesão muscular extensa.

Uma série australiana de 2024 reforça o quadro: 23 casos de lesão no fígado atribuída a anabolizantes, SARMs e suplementos de academia, em nove hospitais. A maioria foi internada, a normalização dos exames levou em média cerca de seis meses, e uma pessoa precisou de transplante. Os autores destacam que contar ao médico tudo o que se usa é decisivo para o diagnóstico. Veja os sinais em anabolizantes, fígado e rins.

Por que ficaram populares

Os SARMs chegaram às academias com uma promessa sedutora: o ganho dos anabolizantes sem os efeitos colaterais. Muitas vezes são vendidos em cápsulas, com rótulo de pesquisa ou de suplemento, o que passa uma falsa sensação de produto leve. A ciência conta outra história. Os ensaios são curtos e feitos com quantidades pequenas, enquanto o uso fora da pesquisa costuma envolver quantidades maiores, por mais tempo e combinadas com outras substâncias. Não há estudo que mostre segurança nesse cenário.

A supressão hormonal vista no ensaio de 2013 também ajuda a entender o que acontece ao parar: com a testosterona do próprio corpo reduzida, podem aparecer cansaço, libido baixa e alterações de humor, o mesmo padrão descrito para anabolizantes em anabolizantes e saúde mental.

O frasco nem sempre contém o que diz

Em 2017, o JAMA publicou a análise química de 44 produtos vendidos pela internet como SARMs nos Estados Unidos. O resultado mostra o tamanho da incerteza:

O que foi encontradoProdutos
Continham pelo menos um SARM23 de 44 (52%)
Continham outra droga não aprovada17 de 44 (39%)
Nenhum composto ativo detectado4 de 44 (9%)
Substâncias não listadas no rótulo11 de 44 (25%)
Quantidade igual à do rótulo18 de 44 (41%)

Entre as outras drogas encontradas havia moléculas experimentais que nunca chegaram a ser aprovadas, incluindo uma que estimula a liberação de hormônio do crescimento. Sem registro, ninguém confere identidade, quantidade, pureza ou contaminação. Quem usa não sabe exatamente o que está colocando no corpo, o que torna ainda mais importante contar ao médico o nome e a origem de qualquer produto.

O que diz a lei no Brasil (outubro de 2026)

Se você usa ou já usou

Sem julgamento: o passo mais protetor é contar ao médico o nome do produto, a origem e por quanto tempo usou. A própria resolução do CFM orienta acolhimento e redução de danos para quem já usa substâncias desse tipo. Exames de função do fígado, perfil lipídico e hormônios ajudam a ver o ponto de partida e a recuperação, como explicamos em exames para quem treina pesado.

Procure atendimento se notar pele ou olhos amarelados, urina escura, coceira intensa no corpo, dor forte do lado direito da barriga, dor muscular intensa com urina escura, dor súbita no calcanhar ou mudanças de humor importantes. Em emergência, ligue 192.

O que tem mais evidência que qualquer atalho

Se o objetivo é músculo e força, as alavancas com mais estudos continuam sendo volume de treino bem distribuído, séries perto do limite, proteína suficiente e sono regular. Elas não aparecem em rótulo, mas aparecem nas metanálises, como mostramos em hipertrofia: o que a ciência mostra e creatina: o que a ciência mostra. Para ver como elas estão no seu caso, faça o quiz Bodybuilding com ciência ou siga a trilha Bodybuilding com ciência.

Como acompanhar

A anamnese da Piantare organiza o seu histórico, o que você usa e os sintomas em 6 minutos, sem custo, para levar à consulta. O orçamento de exames de sangue ajuda a organizar os exames que o médico pedir, como enzimas do fígado, perfil lipídico e hormônios.

Perguntas frequentes

SARM é anabolizante?

Não é um esteroide, mas age no mesmo receptor da testosterona e, para a WADA, está na mesma classe de agentes anabolizantes, proibida o tempo todo.

SARM é mais seguro que anabolizante?

Não há evidência disso. Mesmo em ensaio curto e controlado houve supressão hormonal e queda do HDL, e há relatos de lesão no fígado, ruptura de tendão e rabdomiólise.

SARM é legal no Brasil?

Não. Nenhum tem registro na Anvisa, a comercialização foi proibida em 2021, e o CFM proíbe a prescrição para qualquer indicação.

O produto comprado online é confiável?

Numa análise de 44 produtos vendidos como SARM, só 52% continham a substância, e 25% tinham substâncias não listadas no rótulo.

Usei SARM. O que faço?

Conte ao médico o nome, a origem e o tempo de uso, e faça os exames que ele pedir. Pele amarelada, urina escura ou dor forte na barriga pedem atendimento.

Fontes

  1. Van Wagoner RM et al. Chemical composition and labeling of substances marketed as selective androgen receptor modulators and sold via the internet. JAMA, 2017;318(20):2004-10. doi.org/10.1001/jama.2017.17069 · Evidência B
  2. Basaria S et al. The safety, pharmacokinetics, and effects of LGD-4033, a novel nonsteroidal oral, selective androgen receptor modulator, in healthy young men. J Gerontol A Biol Sci Med Sci, 2013;68(1):87-95. doi.org/10.1093/gerona/gls078 · Evidência B
  3. Vignali JD et al. Systematic review of safety of selective androgen receptor modulators in healthy adults: implications for recreational users. J Xenobiot, 2023;13(2):218-36. doi.org/10.3390/jox13020017 · Evidência B
  4. Nash E et al. Drug-induced liver injury from selective androgen receptor modulators, anabolic-androgenic steroids and bodybuilding supplements in Australia. Aliment Pharmacol Ther, 2024;59(8):953-61. doi.org/10.1111/apt.17906 · Evidência C
  5. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023: normas éticas para a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes. Diário Oficial da União, 11/04/2023. sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2023/2333_2023.pdf · Evidência A
  6. Jurinews. Mantida decisão que negou comercialização e manipulação das substâncias SARMs (TJ-RN, Anvisa RE 791/2021 e RE 554/2021), 27/10/2022. jurinews.com.br/rn/mantida-decisao-que-negou-comercializacao-e-manipulacao-das-substancias-sarms · Evidência D
  7. World Anti-Doping Agency. Prohibited List 2026, classe S1 (agentes anabolizantes), em vigor desde 1/1/2026. www.wada-ama.org/en/prohibited-list · Evidência A

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