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Anabolizantes: o que a ciência mostra sobre efeitos, leis e cuidado
Funcionam para músculo, cobram em coração, hormônios e mente, e quem usa merece informação e acompanhamento, não julgamento.

Esteroides anabolizantes aumentam massa e força, e também alteram pressão, colesterol, hormônios e humor. No estudo HAARLEM, que acompanhou 100 homens por um ano, todos relataram ganho de força e todos tiveram pelo menos um efeito negativo. No Brasil, são medicamentos controlados, e o CFM proíbe a prescrição para fins estéticos ou de desempenho.
Neste texto
- Do que estamos falando
- Quantas pessoas usam
- O que os estudos mostram sobre efeitos
- O que diz a lei no Brasil (outubro de 2026)
- O CFM também fala de acolhimento
- Redução de danos: o que a ciência já testou
- Sinais que pedem atendimento
- Como acompanhar
- Perguntas frequentes
- Fontes
Do que estamos falando
Esteroides anabolizantes androgênicos são a testosterona e moléculas derivadas dela. Na medicina, têm usos legítimos. A própria resolução do Conselho Federal de Medicina cita o hipogonadismo, a puberdade atrasada e a caquexia, a perda intensa de peso e músculo em doenças graves, entre as situações em que a prescrição se justifica. Nesses casos, o objetivo é devolver o hormônio a níveis normais, com diagnóstico e acompanhamento. Fora dela, são usados para ganhar músculo, perder gordura e melhorar desempenho, quase sempre em quantidades bem acima das fisiológicas.
Este texto não ensina uso, não fala de quantidades nem de combinações, e não incentiva ninguém a começar. O objetivo é outro: mostrar com clareza o que a ciência sabe, para quem está decidindo e para quem já usa. Uma informação honesta protege mais do que o silêncio. Se você quer um mapa do seu momento, o quiz Bodybuilding com ciência faz perguntas sobre objetivo, exames e saúde mental, sem julgamento. A trilha Bodybuilding com ciência organiza todos os temas em ordem.
Quantas pessoas usam
A maior estimativa global é uma metanálise de 2014 que reuniu 187 estudos. A prevalência de uso ao longo da vida foi de 3,3% no mundo, 6,4% entre homens e 1,6% entre mulheres. O uso foi maior entre atletas e praticantes de esportes.
Em outras palavras, cerca de 6 em cada 100 homens nesses estudos já tinham usado. Não é um tema distante nem restrito ao esporte profissional: está nas academias de bairro, e por isso merece ser tratado como assunto de saúde.
Mulheres também usam, e os efeitos são outros
A maior parte dos estudos é com homens, o que deixa as mulheres com menos informação. A metanálise de 2017 sobre o sistema reprodutivo, que reuniu 33 estudos, descreve em mulheres aumento do clitóris, menstruação irregular e queda de fertilidade. Algumas mudanças de virilização podem não regredir depois de parar. Mais detalhes em anabolizantes e fertilidade.
O que os estudos mostram sobre efeitos
Ensaios randomizados com as quantidades usadas fora da medicina seriam antiéticos, por isso boa parte do conhecimento vem de estudos observacionais. O mais completo deles é o HAARLEM, uma coorte prospectiva holandesa que acompanhou 100 homens que já tinham decidido iniciar um período de uso.
- Efeito procurado: todos relataram aumento de força.
- Efeitos negativos: todos relataram pelo menos um. Os mais comuns foram retenção de líquido (56%) e agitação (36%) durante o uso, e queda de libido (58%) depois. Acne apareceu em 28% e ginecomastia em 19%.
- Eventos graves: quatro participantes tiveram um evento sério no período, incluindo insuficiência cardíaca e ideação suicida.
- Exames: pressão, colesterol, hematócrito e enzimas do fígado pioraram durante o uso e, na maioria, voltaram ao valor inicial em até um ano.
Há ainda a dependência: parte das pessoas continua usando mesmo diante de efeitos negativos, e a interrupção pode trazer sintomas de abstinência, como humor deprimido e libido baixa. O HAARLEM mostra efeitos de curto prazo, em grande parte reversíveis. Os estudos de quem usa por anos mostram outro quadro, com alterações no coração, na fertilidade e na saúde mental que nem sempre voltam. Cada tema tem um artigo próprio: coração, fígado e rins, fertilidade e saúde mental.
O que diz a lei no Brasil (outubro de 2026)
- Medicamento controlado. Os anabolizantes estão na Lista C5 da Portaria SVS/MS 344/1998, a lista das substâncias anabolizantes, sujeitas à Receita de Controle Especial em duas vias. A lista foi atualizada pela Anvisa em 2025.
- Venda só com receita retida. A Lei 9.965/2000 restringe a venda de esteroides e peptídeos anabolizantes à apresentação de receita de médico ou dentista, que fica retida na farmácia por cinco anos. Vender fora dessas regras é infração sanitária, sem prejuízo de outras sanções.
- Regra para médicos. A Resolução CFM 2.333/2023, publicada em abril de 2023, proíbe prescrever esteroides anabolizantes e hormônios androgênicos com finalidade estética, para ganho de massa muscular ou para melhorar desempenho esportivo, em amadores e profissionais. Também proíbe a prescrição de SARMs para qualquer indicação. A reposição continua indicada quando há deficiência comprovada.
O CFM também fala de acolhimento
Um detalhe pouco conhecido da Resolução 2.333/2023 está na exposição de motivos. O texto afirma que o atendimento de quem já usa deve ser feito sem julgamento, com foco em educação, com estratégias de redução de danos e apoio para quem quer parar. Também registra que só cerca de um terço dos usuários procura ajuda médica.
Ou seja: o médico não pode prescrever para fins estéticos, mas pode, e deve, cuidar de você. Endocrinologistas e médicos do esporte atendem pessoas nessa situação todos os dias. Contar o que você usa é o que permite pedir os exames certos, interpretar resultados e perceber sinais cedo. Se você sentir julgamento numa consulta, procurar outro profissional é um direito seu, não um fracasso.
Redução de danos: o que a ciência já testou
Em 2026, o European Journal of Endocrinology publicou o primeiro estudo controlado de uma intervenção de redução de danos para uso de anabolizantes. Noventa e nove homens que planejavam iniciar o uso receberam aconselhamento individual e avaliação médica. Doze por cento desistiram de começar, e a exposição total entre os que começaram foi bem menor do que num grupo histórico sem intervenção. Não houve sinal de que o acompanhamento incentivasse o uso.
Na prática, redução de danos significa:
- Exames antes, durante e depois, pedidos e interpretados por um médico. Veja quais marcadores costumam ser acompanhados em exames para quem treina pesado.
- Medir a pressão com regularidade.
- Nunca compartilhar agulhas, seringas ou frascos. Num estudo britânico com 395 homens que injetavam substâncias de imagem e desempenho, 9% tinham compartilhado material, e foram encontradas infecções por HIV e hepatites B e C. Teste para essas infecções e vacina contra hepatite B são conversas para ter com o médico.
- Cuidar da saúde mental, inclusive no período depois de parar.
Sinais que pedem atendimento
Procure atendimento sem esperar se aparecer dor no peito, falta de ar, palpitação forte, desmaio, inchaço importante nas pernas, pele ou olhos amarelados, urina muito escura, dor forte na barriga, dor de cabeça intensa com pressão alta, ou mudanças de humor intensas, agressividade fora do comum ou pensamentos de se machucar. Em emergência, ligue 192. Se você está em sofrimento, o CVV atende no 188, 24 horas.
Como acompanhar
Se você quer começar pelo básico, o Piantare Anamnese organiza o seu histórico em 6 minutos, sem custo, para levar à consulta. O orçamento de exames de sangue ajuda a montar o check-up que o médico pedir, e o Ring PRO acompanha sono, frequência cardíaca de repouso e variabilidade, sem medir pressão nem glicose.
Perguntas frequentes
Anabolizante funciona para ganhar músculo?
Sim. Ensaios controlados mostram ganho de massa e força. Os mesmos estudos e as coortes de usuários mostram efeitos negativos em pressão, colesterol, hormônios e humor.
É crime usar anabolizante no Brasil?
Os anabolizantes são medicamentos controlados da Lista C5 e só podem ser vendidos com receita retida. A venda fora dessas regras é infração sanitária, com possíveis outras sanções.
Médico pode prescrever anabolizante para estética?
Não. A Resolução CFM 2.333/2023 proíbe a prescrição para fins estéticos, ganho de massa ou desempenho. A reposição segue indicada quando há deficiência comprovada.
Se eu já uso, posso contar ao médico?
Pode e deve. A própria resolução do CFM orienta acolhimento sem julgamento e redução de danos. Contar o que você usa permite pedir os exames certos.
Os efeitos colaterais passam quando para?
Muitas alterações de exames voltaram ao normal em até um ano no estudo HAARLEM. Em uso longo, alguns efeitos no coração e na fertilidade podem persistir.
Fontes
- Sagoe D et al. The global epidemiology of anabolic-androgenic steroid use: a meta-analysis and meta-regression analysis. Ann Epidemiol, 2014;24(5):383-98. doi.org/10.1016/j.annepidem.2014.01.009 · Evidência A
- Christou MA et al. Effects of anabolic androgenic steroids on the reproductive system of athletes and recreational users: a systematic review and meta-analysis. Sports Med, 2017;47(9):1869-83. doi.org/10.1007/s40279-017-0709-z · Evidência A
- Smit DL et al. Positive and negative side effects of androgen abuse. The HAARLEM study: a one-year prospective cohort study in 100 men. Scand J Med Sci Sports, 2021;31(2):427-38. doi.org/10.1111/sms.13843 · Evidência B
- Verdegaal TJ et al. The efficacy of a harm reduction intervention for androgen abuse: a historically controlled trial. Eur J Endocrinol, 2026;194(2):69-79. doi.org/10.1093/ejendo/lvag002 · Evidência B
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023: normas éticas para a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes. Diário Oficial da União, 11/04/2023. sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2023/2333_2023.pdf · Evidência A
- Brasil. Lei nº 9.965, de 27 de abril de 2000: restringe a venda de esteroides ou peptídeos anabolizantes. www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2000/lei-9965-27-abril-2000-368849-publicacaooriginal-1-pl.html · Evidência A
- Anvisa. RDC nº 985, de 29/07/2025: atualização do Anexo I da Portaria SVS/MS nº 344/1998 (Lista C5, substâncias anabolizantes). www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/controlados/copy4_of_ResoluodaDiretoriaColegiadaRDCn985de29072025.pdf/@@display-file/file · Evidência A
- Hope VD et al. Prevalence of, and risk factors for, HIV, hepatitis B and C infections among men who inject image and performance enhancing drugs: a cross-sectional study. BMJ Open, 2013;3(9):e003207. doi.org/10.1136/bmjopen-2013-003207 · Evidência C