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Anabolizantes, fígado e rins: o que os exames costumam mostrar

Enzimas do fígado e creatinina sobem, e nem toda alta significa a mesma coisa. Entender o contexto muda a leitura do exame.

Publicado25 out 2026
Leitura8 min
Anabolizantes, fígado e rins: o que os exames costumam mostrar
Resposta direta

Anabolizantes podem afetar fígado e rins, e a intensidade varia muito. No estudo HAARLEM, com 100 homens, a enzima TGP subiu em média 18,7 U/L durante o uso e voltou ao normal depois. Já em relatos de uso prolongado aparecem lesões mais sérias, como colestase, adenomas no fígado e um tipo de lesão nos rins chamada GESF.

Neste texto

  1. Por que fígado e rins entram na conversa
  2. Fígado: o que os estudos de curto prazo mostram
  3. Fígado: o que aparece no uso prolongado
  4. Rins: creatinina alta nem sempre é lesão
  5. Rins: o que o uso prolongado pode causar
  6. Pressão alta também pesa nos rins
  7. Sinais que pedem atendimento
  8. Como acompanhar
  9. Perguntas frequentes
  10. Fontes

Por que fígado e rins entram na conversa

O fígado é o órgão que processa a maior parte das substâncias que entram no corpo, e os rins filtram o sangue o tempo todo. Quando alguém usa anabolizantes, os dois órgãos são afetados por caminhos diferentes. No fígado, o efeito depende muito da molécula; nos rins, entram em jogo a pressão, o aumento de massa muscular e, em alguns casos, uma ação direta das substâncias.

O desafio é que quem treina pesado já tem exames diferentes da média, mesmo sem usar nada. Treino intenso eleva enzimas musculares que se confundem com as do fígado, e muita massa muscular eleva a creatinina. Este texto ajuda a separar o que é esperado do que pede atenção. Para a visão geral, veja anabolizantes: o que a ciência mostra.

Fígado: o que os estudos de curto prazo mostram

O estudo HAARLEM acompanhou 100 homens antes, durante e depois de um período de uso de anabolizantes. A TGP, também chamada ALT, subiu em média 18,7 U/L durante o uso. A revisão dos autores, de 2022, descreve o impacto sobre o fígado como evidente, mas limitado, e em geral reversível depois da interrupção.

É importante ler esse número com cuidado. A TGP também sobe depois de treinos pesados, porque existe nos músculos. Por isso, um exame colhido um dia após um treino de pernas pode parecer pior do que o fígado realmente está. Entenda as enzimas em TGO e TGP altos e gama GT alta; a gama GT, por exemplo, não vem do músculo e ajuda o médico a diferenciar a origem.

Fígado: o que aparece no uso prolongado

Revisões sobre o tema descrevem um grupo de lesões mais sérias, documentadas principalmente em relatos e séries de casos. Uma revisão de 2017 do Instituto Superior de Saúde da Itália e outra de 2015, de pesquisadores alemães, listam:

A revisão alemã destaca que as moléculas orais com uma modificação química chamada 17-alfa-alquilação são as mais associadas a essas lesões. Por serem dados de relatos de caso, a evidência é de nível C: mostra que essas lesões existem, mas não diz com que frequência acontecem.

Um retrato recente veio da Austrália. Uma série de 2024 reuniu 23 casos de lesão hepática por medicamento atribuída a anabolizantes, SARMs ou suplementos de academia em nove hospitais. A maioria precisou de internação, a normalização dos exames levou em média cerca de seis meses, e uma pessoa precisou de transplante. Os autores concluíram que o prognóstico costuma ser bom e que contar ao médico tudo o que se usa é decisivo para o diagnóstico.

Suplemento também pode esconder hormônio

Nem toda exposição é escolhida. A revisão italiana de 2017 lembra que esteroides anabolizantes aparecem com frequência em suplementos vendidos livremente, sem constar no rótulo, o que deixa o consumidor sem saber o que está tomando. Na série australiana, suplementos de academia também estavam entre as causas de lesão no fígado. Produtos que prometem efeitos parecidos com os de hormônios, comprados sem procedência clara, merecem a mesma desconfiança. Se surgir qualquer sinal de lesão no fígado, leve ao médico a embalagem de tudo o que você usa, inclusive o que parece inofensivo.

Rins: creatinina alta nem sempre é lesão

A creatinina vem do metabolismo do músculo. Quem tem muita massa muscular ou usa creatina tende a ter valores mais altos, sem que os rins estejam pior. O HAARLEM registrou aumento médio de 4,7 µmol/L na creatinina durante o uso, um valor pequeno.

O problema é que essa mesma explicação pode esconder lesões reais. Por isso, ninguém deveria tirar conclusão de um único valor isolado, nem para se tranquilizar, nem para se assustar. O médico costuma olhar a creatinina junto com outros dados, como exame de urina com pesquisa de proteína e, em alguns casos, a cistatina C, que depende menos da massa muscular. Veja em creatinina alta e na calculadora de taxa de filtração glomerular.

Rins: o que o uso prolongado pode causar

Em 2010, o Journal of the American Society of Nephrology descreveu 10 fisiculturistas com uso prolongado de anabolizantes que desenvolveram perda de proteína na urina e queda da função renal. A biópsia mostrou, em nove deles, glomeruloesclerose segmentar e focal, a GESF, uma lesão nos filtros dos rins.

Os autores levantaram a hipótese de que a lesão resulta da combinação entre o aumento grande de massa corporal, que sobrecarrega os filtros, e um possível efeito direto das substâncias. Eles também observaram que, como a creatinina já é esperada mais alta em fisiculturistas, essa lesão provavelmente é subdiagnosticada. É uma série pequena, de nível C, mas o recado é claro: proteína na urina merece atenção em quem treina pesado.

Pressão alta também pesa nos rins

Pressão elevada por longos períodos é uma das causas mais comuns de perda de função renal. Como os anabolizantes elevam a pressão, como mostrado no HAARLEM e explicado em anabolizantes e coração, medir a pressão com regularidade também é uma forma de cuidar dos rins. Hidratação adequada e cautela com anti-inflamatórios de uso frequente, sempre conversando com o médico, completam o cuidado.

Sinais que pedem atendimento

Procure atendimento se notar pele ou olhos amarelados, urina muito escura, fezes muito claras, coceira intensa no corpo todo, dor forte do lado direito da barriga, inchaço nas pernas ou no rosto, espuma persistente na urina ou queda grande do volume de urina. Urina escura depois de um treino muito intenso, com dor muscular forte, também pede avaliação no mesmo dia. Contar ao médico o que você usa encurta o caminho até o diagnóstico e evita exames e tratamentos que não fazem sentido para o seu caso.

Para entender o seu momento e o que vale acompanhar, faça o quiz Bodybuilding com ciência ou siga a trilha Bodybuilding com ciência. Os exames mais pedidos estão reunidos em exames para quem treina pesado.

Como acompanhar

O orçamento de exames de sangue ajuda a organizar TGO, TGP, gama GT, creatinina e o que mais o médico pedir, para comparar ao longo do tempo. Guardar todos os resultados num lugar só facilita ver tendências em vez de números soltos, e a Idade biológica da Piantare resume marcadores de sangue num número que pode ser repetido.

Perguntas frequentes

Anabolizante faz mal para o fígado?

Pode fazer. No curto prazo, o estudo HAARLEM mostrou aumento modesto e reversível da TGP. Em uso prolongado, relatos descrevem colestase, adenomas e outras lesões, mais ligadas às moléculas orais.

TGP alta em quem treina sempre é problema no fígado?

Não necessariamente. A TGP também existe no músculo e sobe depois de treinos intensos. O médico costuma olhar outros exames, como a gama GT, para diferenciar.

Creatinina alta em quem treina é normal?

Muita massa muscular e creatina elevam a creatinina sem lesão. Mas a mesma explicação pode esconder doença, por isso o exame de urina e, às vezes, a cistatina C ajudam.

Anabolizante pode causar doença nos rins?

Uma série de 10 fisiculturistas com uso prolongado mostrou um tipo de lesão chamada GESF, com perda de proteína na urina. A maioria melhorou após parar.

Quais sinais pedem atendimento?

Pele ou olhos amarelados, urina muito escura, coceira intensa, dor forte no lado direito da barriga, inchaço e espuma persistente na urina.

Fontes

  1. Smit DL et al. Positive and negative side effects of androgen abuse. The HAARLEM study: a one-year prospective cohort study in 100 men. Scand J Med Sci Sports, 2021;31(2):427-38. doi.org/10.1111/sms.13843 · Evidência B
  2. Smit DL, Bond P, de Ronde W. Health effects of androgen abuse: a review of the HAARLEM study. Curr Opin Endocrinol Diabetes Obes, 2022;29(6):560-5. doi.org/10.1097/MED.0000000000000759 · Evidência C
  3. Solimini R et al. Hepatotoxicity associated with illicit use of anabolic androgenic steroids in doping. Eur Rev Med Pharmacol Sci, 2017;21(1 Suppl):7-16. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28379599/ · Evidência C
  4. Nieschlag E, Vorona E. Doping with anabolic androgenic steroids (AAS): adverse effects on non-reproductive organs and functions. Rev Endocr Metab Disord, 2015;16(3):199-211. doi.org/10.1007/s11154-015-9320-5 · Evidência C
  5. Nash E et al. Drug-induced liver injury from selective androgen receptor modulators, anabolic-androgenic steroids and bodybuilding supplements in Australia. Aliment Pharmacol Ther, 2024;59(8):953-61. doi.org/10.1111/apt.17906 · Evidência C
  6. Herlitz LC et al. Development of focal segmental glomerulosclerosis after anabolic steroid abuse. J Am Soc Nephrol, 2010;21(1):163-72. doi.org/10.1681/ASN.2009040450 · Evidência C

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