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Anabolizantes e coração: pressão, colesterol e músculo cardíaco
O coração é onde os efeitos de longo prazo mais aparecem, e também onde exames simples dizem muito.

Anabolizantes afetam o coração por vários caminhos ao mesmo tempo. Numa coorte de 100 homens, a pressão sistólica subiu cerca de 7 mmHg e o HDL caiu durante o uso. Em quem usa por anos, uma metanálise de 2025 com 35 estudos encontrou paredes do coração mais grossas e fração de ejeção menor do que em atletas não usuários.
Neste texto
- Por que o coração é o centro da conversa
- Pressão, colesterol e sangue mais grosso
- O músculo do coração também muda
- Placas nas artérias
- Por que tantos caminhos ao mesmo tempo
- Quais exames o médico costuma pedir
- O que ajuda o coração de quem treina
- Como acompanhar
- Perguntas frequentes
- Fontes
Por que o coração é o centro da conversa
Entre todos os efeitos estudados, os cardiovasculares são os que mais preocupam os especialistas, porque somam vários mecanismos e porque muitos deles não dão sintoma por anos. A declaração científica da Endocrine Society, de 2014, lista alterações em pressão, lipídios, coagulação e no próprio músculo cardíaco como os efeitos de maior impacto à saúde no longo prazo.
A boa notícia é que boa parte dessas mudanças pode ser vista cedo, com exames simples e uma medida de pressão. Este texto explica o que os estudos mostram, sem dizer a ninguém o que fazer com o próprio corpo, e mostra o que vale acompanhar com o médico. Para uma visão geral do tema, veja anabolizantes: o que a ciência mostra.
Pressão, colesterol e sangue mais grosso
O estudo HAARLEM acompanhou 100 homens antes, durante e depois de um período de uso, e publicou em 2022 os efeitos cardiovasculares de curto prazo.
| Marcador | Mudança média durante o uso | Depois de parar |
|---|---|---|
| Pressão sistólica | Subiu cerca de 6,9 mmHg | Voltou ao valor inicial |
| Pressão diastólica | Subiu cerca de 3,2 mmHg | Voltou ao valor inicial |
| LDL e ApoB | Subiram | Voltaram ao valor inicial |
| HDL | Caiu cerca de 0,40 mmol/L | Voltou ao valor inicial |
| Hematócrito | Subiu | Voltou ao valor inicial |
Os autores chamaram as mudanças de pequenas, mas clinicamente relevantes, e rapidamente reversíveis após a interrupção. A ressalva deles é importante: o acompanhamento foi de um ano, então o efeito sobre doença cardiovascular ao longo da vida ficou em aberto. HDL baixo, ApoB alta e hematócrito alto são justamente marcadores que pesam na saúde do coração, como explicamos em colesterol HDL e ApoB.
O músculo do coração também muda
Treino de força pesado, por si só, já engrossa um pouco as paredes do coração. É uma adaptação normal. A pergunta é se os anabolizantes acrescentam algo além disso. Duas metanálises recentes, feitas por grupos com pesquisadores brasileiros, compararam atletas de força usuários e não usuários.
- Metanálise de 2025, no International Journal of Cardiology: 35 estudos e 2.000 homens. Usuários tiveram fração de ejeção, a medida da força de bombeamento, em média 2,25 pontos menor, pior strain longitudinal global e paredes e massa do ventrículo esquerdo maiores.
- Metanálise de 2026, na Echocardiography: 40 estudos e 1.906 atletas. A diferença na fração de ejeção foi maior em quem usava há mais de seis anos, e o espessamento do septo apareceu antes da queda de função.
São estudos transversais, que comparam grupos num momento. Eles não provam que cada pessoa vai ter essas mudanças, mas mostram um padrão consistente que aumenta com o tempo de exposição.
Placas nas artérias
Em 2017, a revista Circulation publicou um estudo com 140 homens de 34 a 54 anos que treinavam pesado havia anos: 86 com pelo menos dois anos acumulados de uso e 54 não usuários. Os pesquisadores fizeram ecocardiograma e angiotomografia das coronárias.
- Os usuários tinham função de bombeamento e de relaxamento do coração menores.
- Quem estava usando no momento da avaliação tinha valores piores do que quem tinha parado.
- Os usuários tinham mais volume de placa nas coronárias, e o tempo acumulado de uso se associou a mais placa.
Os autores concluíram que o uso prolongado parece associado a disfunção do músculo cardíaco e aterosclerose acelerada. É um estudo observacional, com limites, mas com método robusto e coerente com as metanálises.
Por que tantos caminhos ao mesmo tempo
Uma revisão de 2015 na Reviews in Endocrine and Metabolic Disorders resume os mecanismos. Os anabolizantes aumentam o hematócrito e mexem na coagulação, o que favorece trombose. Alteram o colesterol na direção que mais pesa nas artérias. Elevam a pressão. E agem diretamente sobre o músculo cardíaco, com espessamento das paredes e, em parte dos casos, perda de força de bombeamento e arritmias.
O ponto mais traiçoeiro é que nenhum desses caminhos costuma doer no começo. Uma pessoa pode treinar bem, se sentir forte e ter, ao mesmo tempo, pressão acima do ideal, HDL muito baixo e hematócrito alto. É por isso que os especialistas insistem em medir, em vez de confiar em como você se sente.
E quem já parou?
Há motivos para otimismo. No HAARLEM, pressão, colesterol e hematócrito voltaram ao valor inicial em poucos meses após a interrupção. No estudo da Circulation, quem já tinha parado tinha função cardíaca melhor do que quem estava usando. A placa nas artérias, por outro lado, tende a ser mais duradoura, o que reforça o valor de olhar para o coração com o médico, mesmo depois de anos sem uso.
Quais exames o médico costuma pedir
Quem usa ou já usou anabolizantes e quer cuidar do coração costuma ser acompanhado com alguns exames. Quais pedir, e com que frequência, é decisão médica.
- Pressão arterial, de preferência também medida em casa. A diretriz brasileira de hipertensão de 2025 orienta como medir e classificar. Veja pressão arterial normal e como medir pressão em casa.
- Hemograma com hematócrito, porque sangue mais concentrado aumenta a chance de trombose. Veja hemograma completo.
- Perfil lipídico, com HDL, LDL e, quando indicado, ApoB.
- Eletrocardiograma e ecocardiograma, que mostram ritmo, espessura das paredes e força de bombeamento.
O roteiro completo, incluindo fígado, rins e hormônios, está em exames para quem treina pesado.
Sinais que pedem atendimento
Dor ou aperto no peito, falta de ar desproporcional ao esforço, palpitação forte ou irregular, desmaio, inchaço nas pernas, dor de cabeça intensa com pressão alta, fraqueza de um lado do corpo ou dificuldade para falar pedem atendimento imediato. Ligue 192. Contar ao médico o que você usa muda a investigação e o tratamento, e o atendimento deve ser sem julgamento.
O que ajuda o coração de quem treina
Alguns cuidados valem para qualquer pessoa que treina pesado: medir a pressão com regularidade, cuidar do sono, incluir treino aeróbico na semana, manter peso e cintura sob controle e fazer exames periódicos. Para quem usa ou usou anabolizantes, contar ao médico é o passo que permite enxergar mudanças cedo, enquanto muitas ainda são reversíveis. Um cardiologista ou médico do esporte pode decidir, com você, quais exames repetir e em que intervalo. Se a decisão for parar, esse acompanhamento também ajuda a atravessar a fase de queda hormonal e de humor que costuma vir depois, tema de anabolizantes e saúde mental. Para ver como estão sono, exames e saúde mental no seu caso, faça o quiz Bodybuilding com ciência ou siga a trilha Bodybuilding com ciência.
Como acompanhar
O orçamento de exames de sangue ajuda a organizar hemograma, perfil lipídico e outros exames que o médico pedir. O Ring PRO acompanha frequência cardíaca de repouso, variabilidade e sono durante a noite; ele não mede pressão, que continua sendo feita com aparelho de braço.
Perguntas frequentes
Anabolizante aumenta a pressão?
No estudo HAARLEM, a pressão sistólica subiu em média cerca de 7 mmHg durante o uso e voltou ao valor inicial depois de parar.
Anabolizante baixa o HDL?
Sim. O HDL caiu de forma importante durante o uso no estudo HAARLEM, enquanto LDL e ApoB subiram. Os valores voltaram ao inicial após a interrupção.
O coração volta ao normal depois de parar?
Parte das alterações melhora. No estudo da Circulation, quem tinha parado tinha função melhor do que quem estava usando, mas as metanálises mostram mudanças maiores com mais anos de uso.
Quais exames do coração quem usa deve fazer?
Os mais acompanhados são pressão, hemograma com hematócrito, perfil lipídico, eletrocardiograma e ecocardiograma. A escolha e a frequência são decisão do médico.
Por que o hematócrito importa?
Hematócrito alto deixa o sangue mais concentrado e aumenta a chance de trombose. É um dos marcadores mais acompanhados em quem usa anabolizantes.
Fontes
- Smit DL et al. Prospective study on blood pressure, lipid metabolism and erythrocytosis during and after androgen abuse. Andrologia, 2022;54(4):e14372. doi.org/10.1111/and.14372 · Evidência B
- Cavalcante DN et al. Anabolic-androgenic steroids on cardiac structure and function in resistance-trained athletes: a systematic review and meta-analysis. Int J Cardiol, 2025;442:133896. doi.org/10.1016/j.ijcard.2025.133896 · Evidência A
- Fernandes MM et al. Duration-dependent cardiac effects of anabolic-androgenic steroid use in strength-trained athletes: a systematic review and meta-analysis. Echocardiography, 2026;43(9):e70611. doi.org/10.1111/echo.70611 · Evidência A
- Baggish AL et al. Cardiovascular toxicity of illicit anabolic-androgenic steroid use. Circulation, 2017;135(21):1991-2002. doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.116.026945 · Evidência B
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