Meu espaço Começar anamnese

Guia · Performance · Bodybuilding com ciência

Anabolizantes e fertilidade: testosterona, espermatozoides e recuperação

O corpo desliga a própria produção de hormônio enquanto recebe de fora, e religar pode levar meses ou mais.

Publicado24 out 2026
Leitura8 min
Anabolizantes e fertilidade: testosterona, espermatozoides e recuperação
Resposta direta

Anabolizantes desligam a produção natural de testosterona e de espermatozoides enquanto são usados. Uma metanálise de 2017 com 33 estudos mostrou que os hormônios que comandam os testículos voltam em 13 a 24 semanas após parar, mas a testosterona pode seguir baixa. Num estudo dinamarquês, 27% dos ex-usuários tinham testosterona abaixo do normal anos depois.

Neste texto

  1. Como o corpo regula a própria testosterona
  2. O que a metanálise mostrou
  3. Anos depois: o estudo dinamarquês
  4. O que o HAARLEM acrescenta
  5. Exames que costumam ser pedidos
  6. Mulheres: efeitos que podem não voltar
  7. Quem quer ter filhos: a conversa com o médico
  8. Como acompanhar
  9. Perguntas frequentes
  10. Fontes

Como o corpo regula a própria testosterona

A produção de testosterona funciona como um termostato. O cérebro, por meio do hipotálamo e da hipófise, libera dois hormônios, o LH e o FSH. O LH manda os testículos produzirem testosterona; o FSH, junto com a testosterona local, sustenta a produção de espermatozoides. Quando há testosterona suficiente no sangue, o cérebro reduz o sinal.

Quando a testosterona, ou um derivado dela, vem de fora em quantidade alta, o cérebro entende que há hormônio de sobra e desliga LH e FSH. Os testículos ficam sem comando. A produção própria de testosterona cai, e a de espermatozoides também. É por isso que, paradoxalmente, um hormônio associado à virilidade pode reduzir a fertilidade. Para entender os exames hormonais, veja testosterona total e livre e exames hormonais masculinos.

O que a metanálise mostrou

A revisão sistemática com metanálise de 2017 na Sports Medicine reuniu 33 estudos e 3.879 participantes, entre usuários e não usuários.

MomentoO que aconteceu com os hormônios
Durante o usoLH, FSH e a testosterona produzida pelo próprio corpo caíram de forma significativa
Depois de pararLH e FSH voltaram gradualmente aos valores iniciais em 13 a 24 semanas
Depois de pararA testosterona continuava abaixo do valor inicial, inclusive 16 semanas após a interrupção

A revisão também descreveu alterações na estrutura e na função dos espermatozoides, redução do volume dos testículos e ginecomastia. Os autores concluíram que a maioria dos usuários apresentou hipogonadismo, com hormônios baixos por semanas a meses após a retirada, com efeitos profundos e prolongados sobre a fertilidade.

Anos depois: o estudo dinamarquês

Em 2016, pesquisadores de Copenhague compararam três grupos de homens de 18 a 50 anos que treinavam força: 37 usuários atuais, 33 ex-usuários que tinham parado havia em média 2,5 anos e 30 que nunca usaram.

É um estudo transversal, com amostra pequena, mas aponta algo que muita gente só descobre depois: em parte das pessoas, a volta não é completa. Quando a testosterona fica baixa, os sintomas se parecem com os descritos em testosterona baixa.

O que o HAARLEM acrescenta

No estudo holandês que acompanhou 100 homens por um ano, a queda de libido depois do período de uso foi o efeito negativo mais relatado, em 58%. Ao fim de um ano, a função dos testículos tinha voltado na maioria. A revisão dos autores, de 2022, resume assim: a função reprodutiva é interrompida, mas retorna na maior parte dos casos após a interrupção.

Juntando os estudos, o quadro é coerente: a maioria se recupera, em meses; uma parte demora mais; e uma parte menor fica com testosterona baixa por anos. Tempo de uso, idade e fertilidade antes do uso parecem pesar, mas ainda faltam estudos que permitam prever quem vai se recuperar.

Para quem está pensando em começar, esse costuma ser o ponto mais subestimado. Aos 20 e poucos anos, ter filhos pode parecer um assunto distante. Mas a decisão de hoje pode pesar em planos de família daqui a cinco ou dez anos, e é mais fácil conversar sobre isso antes do que depois. Um espermograma de referência, feito antes de qualquer decisão, também ajuda o médico a comparar no futuro.

Exames que costumam ser pedidos

Quem quer entender a própria fertilidade depois do uso costuma passar por alguns exames. A escolha e a interpretação são do médico; a tabela abaixo ajuda a entender para que serve cada um.

ExameO que ajuda a mostrar
LH e FSHSe o cérebro voltou a mandar o sinal para os testículos
Testosterona total e livreSe os testículos voltaram a produzir hormônio em nível normal
EspermogramaQuantidade, movimento e forma dos espermatozoides
Estradiol e prolactinaHormônios que podem estar alterados e ajudam a explicar sintomas como ginecomastia e libido baixa

Dois equívocos comuns

O primeiro é achar que, se a libido está alta durante o uso, a fertilidade está preservada. A libido responde ao hormônio que vem de fora; a produção de espermatozoides depende do sinal do cérebro, que está desligado. O segundo é imaginar que um exame normal meses depois garante que tudo voltou. Repetir os mesmos marcadores ao longo do tempo, com o mesmo laboratório, dá uma leitura mais confiável da tendência.

Mulheres: efeitos que podem não voltar

Em mulheres, os anabolizantes produzem efeitos de masculinização. A metanálise de 2017 descreve aumento do clitóris, menstruação irregular e redução da fertilidade, e os autores lembram que parte dos efeitos dos anabolizantes sobre o sistema reprodutivo pode ser irreversível.

Mulheres foram muito menos estudadas, o que é uma lacuna séria. Para quem quer engravidar no futuro, a conversa com ginecologista ou endocrinologista, contando o que foi usado, ajuda a planejar exames e o tempo de espera. Para entender os hormônios femininos, veja exames hormonais femininos.

Quem quer ter filhos: a conversa com o médico

Se você usa ou usou anabolizantes e pensa em ter filhos, o caminho é procurar um endocrinologista ou urologista especialista em reprodução, contando tudo o que usou. Exames de LH, FSH, testosterona e espermograma ajudam a entender o ponto de partida. A decisão sobre qualquer tratamento é do médico, com você. Tentar acelerar a recuperação por conta própria, com remédios comprados sem receita, pode atrasar o diagnóstico e trazer outros efeitos.

A Resolução CFM 2.333/2023 orienta que quem usa seja atendido sem julgamento e com apoio para parar. Endocrinologistas atendem essa situação com frequência. Para ver como sono, exames e saúde mental estão no seu caso, o quiz Bodybuilding com ciência ajuda, e a trilha Bodybuilding com ciência reúne os temas em ordem.

Humor e libido depois de parar

A fase depois da interrupção costuma ser a mais difícil. Com a testosterona baixa, aparecem cansaço, libido reduzida, tristeza e perda de força, justamente quando o físico começa a mudar. É nesse momento que muita gente volta a usar para escapar dos sintomas. Saber que essa fase existe, ter acompanhamento médico e apoio psicológico faz diferença. Leia mais em anabolizantes e saúde mental. Se você estiver em sofrimento, o CVV atende no 188, 24 horas, e em emergência ligue 192.

Como acompanhar

O orçamento de exames de sangue ajuda a organizar os exames hormonais que o médico pedir e a repetir os mesmos marcadores para ver a recuperação. O Ring PRO acompanha sono e variabilidade da frequência cardíaca, sinais que costumam refletir como o corpo está atravessando essa fase; ele não mede hormônios.

Perguntas frequentes

Anabolizante deixa infértil?

Durante o uso, a produção de espermatozoides costuma cair muito. Na maioria dos casos ela volta após parar, mas pode levar meses, e em parte das pessoas a recuperação é incompleta.

Quanto tempo a testosterona demora para voltar?

Na metanálise de 2017, LH e FSH voltaram em 13 a 24 semanas, mas a testosterona ainda estava baixa 16 semanas depois. Num estudo dinamarquês, 27% dos ex-usuários seguiam abaixo do normal anos depois.

Por que os testículos diminuem?

Com hormônio vindo de fora, o cérebro para de enviar LH e FSH. Sem esse comando, os testículos reduzem a produção e o volume.

Mulheres podem ter efeitos permanentes?

Podem. A metanálise de 2017 descreve aumento do clitóris, menstruação irregular e queda de fertilidade, e parte desses efeitos pode não regredir depois de parar.

Quem procurar para recuperar a fertilidade?

Um endocrinologista ou urologista especialista em reprodução. Conte tudo o que usou; o tratamento, se houver, é decisão médica.

Fontes

  1. Christou MA et al. Effects of anabolic androgenic steroids on the reproductive system of athletes and recreational users: a systematic review and meta-analysis. Sports Med, 2017;47(9):1869-83. doi.org/10.1007/s40279-017-0709-z · Evidência A
  2. Rasmussen JJ et al. Former abusers of anabolic androgenic steroids exhibit decreased testosterone levels and hypogonadal symptoms years after cessation: a case-control study. PLoS One, 2016;11(8):e0161208. doi.org/10.1371/journal.pone.0161208 · Evidência B
  3. Smit DL et al. Positive and negative side effects of androgen abuse. The HAARLEM study: a one-year prospective cohort study in 100 men. Scand J Med Sci Sports, 2021;31(2):427-38. doi.org/10.1111/sms.13843 · Evidência B
  4. Smit DL, Bond P, de Ronde W. Health effects of androgen abuse: a review of the HAARLEM study. Curr Opin Endocrinol Diabetes Obes, 2022;29(6):560-5. doi.org/10.1097/MED.0000000000000759 · Evidência C
  5. Pope HG et al. Adverse health consequences of performance-enhancing drugs: an Endocrine Society scientific statement. Endocr Rev, 2014;35(3):341-75. doi.org/10.1210/er.2013-1058 · Evidência A
  6. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.333/2023: normas éticas para a prescrição de terapias hormonais com esteroides androgênicos e anabolizantes. Diário Oficial da União, 11/04/2023. sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2023/2333_2023.pdf · Evidência A

Leia também

30 out 2026Anabolizantes: o que a ciência mostra sobre efeitos, leis e cuidadoFuncionam para músculo, cobram em coração, hormônios e mente, e quem usa merece informação e acompanhamento, não julgamento.9 out 2026Testosterona baixa: sintomas, valores de referência e o que fazer depois dos 40Quais sinais contam de verdade, como fazer o exame do jeito certo e o que a rotina muda no hormônio.25 out 2026Anabolizantes e saúde mental: humor, dependência e a fase depois de pararNem todo mundo muda de humor, mas quem muda pode mudar muito. E a fase depois de parar merece o mesmo cuidado.