Biohacking · NAD+
NAD+: o que é, para que serve no corpo e o que os estudos com NMN e NR mostram de verdade
A molécula da energia celular virou estrela da longevidade. Nos animais, os resultados empolgam; em humanos, os efeitos ainda são pequenos.

O NAD+ é uma molécula que todas as células usam para produzir energia e reparar o DNA. Suplementos como NMN e NR elevam o NAD+ no sangue de humanos, mas os efeitos clínicos ainda são poucos: uma revisão crítica dos 25 estudos publicados com NR concluiu que ele mostrou poucos efeitos clinicamente relevantes até agora (Damgaard, 2023).
Neste texto
- O que é o NAD+
- Por que o NAD+ virou assunto de longevidade
- NAD+ para que serve: o que os ensaios em humanos mostram
- Associação, causa e o que não está provado
- O que eleva o NAD+ sem suplemento
- Quem deve conversar com o médico antes
- Como testar em você (N=1)
- Como acompanhar
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é o NAD+
NAD+ é a sigla para nicotinamida adenina dinucleotídeo, uma coenzima presente em todas as células vivas. Ela funciona como uma carregadora de elétrons nas reações que transformam comida em energia dentro das mitocôndrias. Além disso, o NAD+ é consumido por enzimas que participam do reparo do DNA, da resposta ao estresse e da regulação de genes, como as sirtuínas e as PARPs.
O corpo fabrica NAD+ a partir de várias matérias-primas: a vitamina B3, nas formas de niacina e nicotinamida, o aminoácido triptofano e moléculas intermediárias como o NR (nicotinamida ribosídeo) e o NMN (nicotinamida mononucleotídeo). Os suplementos vendidos como reforço de NAD+ são, quase sempre, essas moléculas precursoras.
Uma alimentação variada fornece vitamina B3 e triptofano em quantidade suficiente para a maioria das pessoas. Carnes, peixes, ovos, leguminosas, amendoim e grãos integrais são boas fontes.
A importância dessa via ficou clara há mais de um século, com a pelagra, uma doença causada pela falta de vitamina B3 que provoca alterações na pele, no intestino e no sistema nervoso. Ela foi comum em populações com alimentação muito baseada em milho mal processado e praticamente desapareceu com a melhora da dieta e o enriquecimento de alimentos. Ou seja, garantir a matéria-prima do NAD+ é essencial. A pergunta do biohacking é outra: se colocar mais do que o corpo precisa traz algum benefício extra.
Por que o NAD+ virou assunto de longevidade
Em estudos com animais, os níveis de NAD+ caem com a idade em vários tecidos. Em camundongos, Camacho-Pereira e colegas mostraram que uma enzima chamada CD38, que consome NAD+, aumenta com o envelhecimento e ajuda a explicar essa queda EV D. Em modelos animais, elevar o NAD+ melhorou a função das mitocôndrias, a resposta à insulina e outros marcadores.
A revisão de Rajman, Chwalek e Sinclair na Cell Metabolism, de 2018, reuniu esse corpo de evidência pré-clínica e as hipóteses sobre como moléculas que aumentam o NAD+ poderiam agir contra doenças ligadas à idade EV D. Foi daí que veio a onda de suplementos, injeções e soros de NAD+.
O salto do camundongo para o humano, porém, é grande. Em pessoas, a queda do NAD+ com a idade parece existir em alguns tecidos e ser menor ou incerta em outros, e os estudos ainda são pequenos.
Se você quer separar mecanismo de resultado em temas como esse, o guia Biohacking com ciência traz um capítulo sobre a fronteira da longevidade com o nível de evidência de cada ideia, e o laboratório N=1 do Meu espaço mostra como registrar um experimento com método.
NAD+ para que serve: o que os ensaios em humanos mostram
| Estudo | Quem participou | O que encontrou | Nível |
|---|---|---|---|
| Martens e colegas, 2018 (NR) | Adultos saudáveis de meia-idade e idosos, 6 semanas | Bem tolerado; elevou o NAD+ no sangue; sinais a investigar em pressão e rigidez das artérias | C |
| Elhassan e colegas, 2019 (NR) | 12 homens idosos, 21 dias | Elevou metabólitos de NAD+ no músculo e reduziu marcadores inflamatórios; não mudou a função das mitocôndrias | C |
| Yoshino e colegas, 2021 (NMN) | Mulheres na pós-menopausa com pré-diabetes e sobrepeso, 10 semanas | Aumentou a sensibilidade do músculo à insulina | C |
| Damgaard e Treebak, 2023 (revisão de NR) | 25 estudos publicados em humanos | Poucos efeitos clinicamente relevantes; tendência a exagerar resultados | A |
O padrão se repete: os precursores elevam o NAD+ de forma consistente, e isso é um efeito real sobre um marcador. O que falta é mostrar que essa elevação se traduz em benefícios que a pessoa sente ou que mudam a saúde a longo prazo. O ensaio de Yoshino, publicado na Science, é o mais citado. Ele é bem feito, mas foi pequeno, num grupo específico de mulheres com pré-diabetes, e mediu um marcador fino de laboratório. Ele não testou longevidade, energia ou envelhecimento.
A revisão de Damgaard e Treebak é útil justamente por ser crítica. Os autores leram os 25 artigos publicados com NR em humanos e concluíram que os efeitos clínicos relevantes foram poucos, apesar de algum sinal sobre estados inflamatórios e de interesse em doenças específicas EV A.
Associação, causa e o que não está provado
Muito do que se fala sobre NAD+ mistura três níveis de evidência:
- Mecanismo: o NAD+ participa da energia celular e do reparo do DNA. Isso é bem estabelecido.
- Animais: elevar o NAD+ melhora marcadores e, em alguns estudos, a saúde de camundongos idosos. Isso é promissor.
- Humanos: os suplementos elevam o NAD+ no sangue e em alguns tecidos, com poucos efeitos clínicos medidos até agora. Isso é o que se sabe hoje.
Não há ensaio mostrando que suplementos de NAD+ prolongam a vida, rejuvenescem ou melhoram a energia de pessoas saudáveis. Também não se sabe se elevar o NAD+ por anos é sempre desejável, e esse é um dos motivos para cautela com uso prolongado sem acompanhamento.
Soros e injeções de NAD+ vendidos como bem-estar não têm ensaios robustos para esse fim. Procedimentos injetáveis são atos de saúde e devem ser avaliados com o médico. Veja também epigenética e genes da longevidade.
O que eleva o NAD+ sem suplemento
Alguns hábitos atuam no metabolismo energético que o NAD+ sustenta e têm benefícios bem documentados por outros caminhos:
- Exercício. O treino aeróbico e de força estimula a formação de novas mitocôndrias. O fôlego está entre os marcadores mais ligados a uma vida longa. Veja treino zona 2 e VO2 máximo.
- Sono regular. O ritmo circadiano regula as enzimas que fabricam NAD+ ao longo do dia.
- Alimentação variada. Fontes de vitamina B3 e triptofano estão em carnes, peixes, ovos, leguminosas e grãos.
- Álcool com moderação. O fígado consome NAD+ para metabolizar o álcool.
Nenhum desses hábitos foi testado com o NAD+ como desfecho principal em grandes ensaios. Mas todos têm benefícios próprios bem estabelecidos, o que os torna apostas seguras.
Quem deve conversar com o médico antes
A decisão sobre usar qualquer precursor de NAD+, de que tipo e por quanto tempo, é com o médico. Isso vale em especial para:
- pessoas com câncer ou em acompanhamento após um tratamento;
- gestantes e lactantes, grupos sem estudos;
- pessoas com doenças do fígado ou dos rins;
- quem usa vários suplementos ou remédios contínuos.
O status regulatório desses produtos também varia entre países e já mudou mais de uma vez nos últimos anos. Pergunte ao profissional sobre a regularização do produto no Brasil.
Como testar em você (N=1)
Em vez de testar um suplemento caro com efeito incerto, teste a alavanca com mais evidência sobre energia e metabolismo, o movimento:
- Linha de base de 2 semanas. Registre sua energia à tarde (1 a 5) e faça a Leitura de Pulso ao acordar, três vezes por semana.
- Uma mudança só. Por 6 a 8 semanas, acrescente três sessões de 30 a 40 minutos de aeróbico em ritmo de conversa.
- Meça do mesmo jeito. Some a Leitura de Foco no fim da tarde, uma vez por semana. As duas Leituras são sem custo.
- Compare médias. Uma frequência de repouso que cai algumas batidas ao longo de semanas é um sinal de adaptação do coração.
Como acompanhar
A Piantare é uma infraestrutura de saúde e longevidade: une exames, DNA, wearables e hábitos num lugar só e traduz isso em decisões. No app Piantare, em lançamento, você conecta Apple Saúde, Google Health, Strava ou o Ring PRO, guarda os exames que envia e acompanha sono, frequência cardíaca e marcadores metabólicos ao longo do tempo. O PIÁ responde com base nos seus dados e em estudos.
Perguntas frequentes
NAD+ rejuvenesce?
Não há ensaio em humanos mostrando rejuvenescimento ou aumento da expectativa de vida com suplementos de NAD+. Os resultados mais animadores vêm de animais.
Qual a diferença entre NMN e NR?
Os dois são precursores que o corpo converte em NAD+. Ambos elevam o NAD+ no sangue em estudos humanos; nenhum tem benefício clínico amplo comprovado em pessoas saudáveis.
NAD+ injetável funciona?
Não há ensaios robustos que sustentem soros ou injeções de NAD+ para bem-estar ou longevidade. Procedimentos injetáveis devem ser avaliados com o médico.
O NAD+ cai com a idade?
Em animais, sim, em vários tecidos. Em humanos, a queda parece ocorrer em alguns tecidos e ser menor ou incerta em outros.
Exercício aumenta o NAD+?
O exercício estimula o metabolismo das mitocôndrias, que usa NAD+, e tem benefícios bem documentados por si só. É a alternativa com mais evidência para a saúde metabólica.
Fontes
- Damgaard MV, Treebak JT. What is really known about the effects of nicotinamide riboside supplementation in humans. Science Advances, 2023;9(29):eadi4862. doi.org/10.1126/sciadv.adi4862 · Evidência A
- Yoshino M et al. Nicotinamide mononucleotide increases muscle insulin sensitivity in prediabetic women. Science, 2021;372(6547):1224-1229. doi.org/10.1126/science.abe9985 · Evidência C
- Martens CR et al. Chronic nicotinamide riboside supplementation is well-tolerated and elevates NAD+ in healthy middle-aged and older adults. Nature Communications, 2018;9(1):1286. doi.org/10.1038/s41467-018-03421-7 · Evidência C
- Elhassan YS et al. Nicotinamide Riboside Augments the Aged Human Skeletal Muscle NAD+ Metabolome and Induces Transcriptomic and Anti-inflammatory Signatures. Cell Reports, 2019;28(7):1717-1728. doi.org/10.1016/j.celrep.2019.07.043 · Evidência C
- Rajman L, Chwalek K, Sinclair DA. Therapeutic Potential of NAD-Boosting Molecules: The In Vivo Evidence. Cell Metabolism, 2018;27(3):529-547. doi.org/10.1016/j.cmet.2018.02.011 · Evidência D
- Camacho-Pereira J et al. CD38 Dictates Age-Related NAD Decline and Mitochondrial Dysfunction through an SIRT3-Dependent Mechanism. Cell Metabolism, 2016;23(6):1127-1139. doi.org/10.1016/j.cmet.2016.05.006 · Evidência D