Exames · Metabolismo
Insulina de jejum e HOMA-IR: valores de referência e como interpretar
O que a insulina de jejum mostra antes da glicose mudar, como o HOMA-IR é calculado e o ponto de corte usado em estudo brasileiro.

A insulina de jejum mostra quanto hormônio o pâncreas precisa liberar para manter a glicose normal. Combinada com a glicemia no índice HOMA-IR, estima a resistência à insulina. No estudo brasileiro BRAMS, com 1.203 adultos sem diabetes, o ponto de corte para resistência à insulina foi HOMA-IR acima de 2,7. Como os ensaios de insulina variam entre laboratórios, o índice é uma estimativa, não um diagnóstico.
Neste texto
- O que é a insulina de jejum
- Como calcular o HOMA-IR e os valores de referência
- Os limites do exame
- Causas de insulina de jejum alta
- Como se preparar para o exame
- Hábitos que melhoram a sensibilidade à insulina
- Quando repetir
- Como acompanhar a sua insulina
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é a insulina de jejum
A insulina é o hormônio produzido pelo pâncreas que ajuda a glicose a entrar nas células dos músculos, do fígado e da gordura. Em jejum, o pâncreas mantém uma liberação basal, suficiente para segurar a glicose na faixa normal.
Quando as células passam a responder menos à insulina, o que se chama de resistência à insulina, o pâncreas compensa produzindo mais. Durante anos, essa compensação mantém a glicose normal. O que muda primeiro é a insulina, que sobe.
É por isso que a insulina de jejum interessa: ela pode mostrar o esforço do pâncreas antes que a glicemia de jejum ou a hemoglobina glicada saiam da faixa. Quando a compensação começa a falhar, a glicose sobe e aparece o pré-diabetes.
Essa sequência costuma levar anos e tende a ficar mais comum a partir dos 30 e 40 anos, quando muita gente ganha peso aos poucos, dorme menos e se movimenta menos do que antes. A boa notícia é que, nessa fase de compensação, o corpo responde muito bem a mudanças de hábito, e é justamente aí que o exame pode ser mais útil.
Como calcular o HOMA-IR e os valores de referência
O HOMA-IR (Homeostasis Model Assessment of Insulin Resistance) foi descrito em 1985 por pesquisadores de Oxford. Ele combina glicose e insulina de jejum numa conta simples EV B:
HOMA-IR = glicemia de jejum (mg/dL) × insulina de jejum (µUI/mL) ÷ 405
Se a glicose estiver em mmol/L, o divisor é 22,5. Exemplo: glicemia de 90 mg/dL e insulina de 10 µUI/mL dão HOMA-IR de 2,2. A calculadora de HOMA-IR faz a conta para você.
No estudo original, o HOMA-IR teve boa correlação com o clamp euglicêmico, o método de referência para medir a sensibilidade à insulina (coeficiente de 0,88). Os autores também apontaram a baixa precisão individual da estimativa, com coeficiente de variação de cerca de 31% EV B.
Os pontos de corte mais usados no Brasil vêm do BRAMS, o Estudo Brasileiro de Síndrome Metabólica EV B:
| Índice | Ponto de corte | O que indica |
|---|---|---|
| HOMA-IR | acima de 2,7 | Resistência à insulina (percentil 90 de 297 adultos saudáveis) |
| HOMA-IR | acima de 2,3 | Associação com síndrome metabólica |
| HOMA2-IR | acima de 1,8 | Resistência à insulina pelo modelo atualizado |
Fonte: Geloneze et al., Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, 2009. Uma revisão anterior do mesmo grupo citava o corte de 2,71 para a população brasileira EV B.
Para a insulina de jejum isolada, não há um valor universal. Cada laboratório informa a faixa do próprio método, e é ela que vale.
Alguns exemplos de cálculo ajudam a visualizar o índice:
| Glicemia de jejum | Insulina de jejum | HOMA-IR | Leitura pelo corte do BRAMS |
|---|---|---|---|
| 85 mg/dL | 6 µUI/mL | 1,3 | abaixo de 2,7 |
| 92 mg/dL | 10 µUI/mL | 2,3 | abaixo de 2,7, no limite associado à síndrome metabólica |
| 95 mg/dL | 14 µUI/mL | 3,3 | acima de 2,7 |
| 105 mg/dL | 18 µUI/mL | 4,7 | acima de 2,7, com glicemia já alterada |
Repare na terceira linha: a glicemia está normal, dentro da faixa de qualquer laudo, mas o índice já está acima do corte usado no estudo brasileiro. É o retrato da compensação silenciosa descrita acima.
Se o médico pediu insulina e glicemia de jejum, deixe seus dados no formulário abaixo e receba um orçamento de coleta em casa ou num ponto parceiro, cedo, ainda em jejum.
Os limites do exame
A insulina de jejum e o HOMA-IR são úteis, mas têm limites que vale conhecer:
- Os ensaios não são padronizados. Num trabalho de um grupo da Associação Americana de Diabetes, 10 métodos comerciais de insulina foram comparados com o método de referência. Em 7 deles, o desvio passou de 15,5% em parte das amostras EV B. Na prática, a mesma pessoa pode ter valores diferentes em laboratórios diferentes, e cortes de um estudo não se transportam automaticamente para outro método.
- A variação individual é grande. O próprio estudo original estimou imprecisão de cerca de 31% no HOMA-IR.
- Não serve para quem usa insulina, porque a insulina medida inclui a aplicada.
- Não é exame de diagnóstico de diabetes. O diagnóstico usa glicemia de jejum, hemoglobina glicada e curva glicêmica.
Por isso o HOMA-IR funciona melhor como parte de um quadro, ao lado da cintura, dos triglicerídeos, do HDL, da pressão e da glicose, e comparado com ele mesmo ao longo do tempo, no mesmo laboratório.
Causas de insulina de jejum alta
- Excesso de gordura abdominal, a principal. A gordura visceral libera substâncias que reduzem a resposta à insulina.
- Sedentarismo: músculos parados captam menos glicose.
- Sono curto ou irregular.
- Alimentação com muito açúcar e ultraprocessados.
- Síndrome dos ovários policísticos, muito ligada à resistência à insulina.
- Histórico familiar e predisposição genética.
- Alguns remédios, como corticoides.
- Gestação, em que a resistência à insulina aumenta de forma natural na segunda metade.
Sinais que costumam acompanhar: aumento da cintura, triglicerídeos altos, HDL baixo, pressão subindo e manchas escuras e aveludadas na pele do pescoço e das axilas, chamadas acantose nigricans.
Como se preparar para o exame
- Jejum de 8 a 12 horas, conforme o laboratório. Água é permitida.
- Jantar habitual na véspera, sem exageros nem restrições fora do comum.
- Sem treino intenso na manhã da coleta.
- Durma bem na noite anterior, porque a privação de sono altera a resposta à insulina.
- Informe remédios, principalmente corticoides e remédios para diabetes.
- Prefira o mesmo laboratório para comparar com exames anteriores.
O guia exame de sangue precisa de jejum explica quais exames ainda exigem esse preparo.
Hábitos que melhoram a sensibilidade à insulina
A resistência à insulina é uma das condições metabólicas que mais respondem a mudanças de hábito. O exemplo mais conhecido é o Programa de Prevenção do Diabetes, nos Estados Unidos. Em pessoas com glicose já alterada, mudanças de estilo de vida com cerca de 7% de perda de peso e 150 minutos semanais de atividade física reduziram em 58% a chance de desenvolver diabetes tipo 2 em cerca de 3 anos EV A. Para comparar, o remédio testado no mesmo estudo reduziu em 31%. Em números absolutos, a cada 7 pessoas no programa de estilo de vida, um caso de diabetes foi evitado em 3 anos.
- Movimento diário, com treino aeróbico e de força. Músculos ativos captam glicose mesmo com menos insulina.
- Caminhada depois das refeições, que ajuda a conter os picos de glicose.
- Perda de peso gradual quando há excesso, sobretudo da gordura abdominal.
- Menos açúcar, bebidas açucaradas e farinhas refinadas; mais fibras, legumes, proteína e gorduras de boa qualidade.
- Sono de 7 a 9 horas, com horário regular.
Tratamento com remédio, quando necessário, é decisão do médico.
Quando repetir
Depois dos 40 anos, e principalmente para quem tem cintura aumentada, histórico familiar de diabetes ou já teve diabetes gestacional, vale conversar com o médico sobre quais exames metabólicos acompanhar e com que frequência.
Quem tem HOMA-IR alto e começou a mudar hábitos pode repetir depois de 3 a 6 meses, sempre no mesmo laboratório, para ver a tendência. Quem tem resultado normal e nenhum outro sinal metabólico não precisa repetir com frequência. O médico ajusta o intervalo conforme a cintura, a glicose, os triglicerídeos e o histórico familiar.
Como acompanhar a sua insulina
Insulina, glicose, triglicerídeos e cintura contam juntos a história do metabolismo, e a mudança aparece quando eles ficam lado a lado no tempo. O App Piantare guarda os exames que você envia, reúne dados do Apple Saúde, do Google Health, do Strava e do Ring PRO e mostra a evolução no Mapa da Longevidade, com a PIÁ respondendo com base nos seus dados e em estudos. Ele está em lançamento: entre na lista do app. A Piantare também está estruturando a coleta de sangue em casa e em pontos parceiros, e o formulário desta página serve para pedir um orçamento. O Piantare Helix, exame de DNA de estilo de vida por saliva, traz relatórios de nutrição e prevenção que ajudam a orientar hábitos ligados ao metabolismo.
Perguntas frequentes
Qual o valor normal de insulina de jejum?
Não existe um valor universal, porque os métodos variam entre laboratórios. Vale a faixa do seu laudo. Para interpretar, o médico costuma calcular o HOMA-IR junto com a glicemia.
Qual o valor normal do HOMA-IR?
No estudo brasileiro BRAMS, o ponto de corte para resistência à insulina foi acima de 2,7. Valores acima de 2,3 se associaram à síndrome metabólica. É uma estimativa, não um diagnóstico.
Como calcular o HOMA-IR?
Multiplique a glicemia de jejum em mg/dL pela insulina de jejum em µUI/mL e divida por 405. Com glicose em mmol/L, divida por 22,5.
Insulina alta com glicose normal é pré-diabetes?
Não. Pré-diabetes é definido pela glicose ou pela hemoglobina glicada. A insulina alta com glicose normal sugere resistência à insulina compensada, um bom momento para ajustar hábitos.
Precisa de jejum para o exame de insulina?
Sim. A insulina de jejum é colhida depois de 8 a 12 horas sem comer, conforme o laboratório, porque qualquer refeição eleva o valor.
Fontes
- Matthews DR et al. Homeostasis model assessment: insulin resistance and beta-cell function from fasting plasma glucose and insulin concentrations in man. Diabetologia, 1985. doi.org/10.1007/BF00280883 · Evidência B
- Geloneze B et al. HOMA1-IR and HOMA2-IR indexes in identifying insulin resistance and metabolic syndrome: Brazilian Metabolic Syndrome Study (BRAMS). Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, 2009. doi.org/10.1590/s0004-27302009000200020 · Evidência B
- Geloneze B, Tambascia MA. Avaliação laboratorial e diagnóstico da resistência insulínica. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, 2006. doi.org/10.1590/s0004-27302006000200007 · Evidência B
- Miller WG et al. Toward standardization of insulin immunoassays. Clinical Chemistry, 2009. doi.org/10.1373/clinchem.2008.118380 · Evidência B
- Knowler WC et al. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. New England Journal of Medicine, 2002. doi.org/10.1056/NEJMoa012512 · Evidência A