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Adesão ao tratamento em doenças crônicas: o tamanho do problema e o que funciona
Números do Brasil e do mundo, como medir adesão de forma confiável e quais intervenções têm evidência em ensaios.

Adesão ao tratamento é o quanto o comportamento da pessoa, ao tomar remédios ou mudar hábitos, corresponde ao que foi combinado com o profissional de saúde. No Brasil, a pesquisa nacional PNAUM encontrou baixa adesão ao tratamento medicamentoso de doenças crônicas em 30,8% das pessoas, com valores maiores entre adultos jovens, quem usa cinco ou mais medicamentos e quem paga parte do tratamento.
Neste texto
- O que é adesão ao tratamento
- O tamanho do problema no Brasil e no mundo
- Por que a adesão muda o resultado clínico
- Como medir adesão
- O que funciona para melhorar a adesão
- O papel de cada ator
- Dados contínuos como apoio à adesão
- Como a Piantare apoia a indústria farmacêutica
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é adesão ao tratamento
A Organização Mundial da Saúde define adesão como o grau em que o comportamento da pessoa, seja tomar medicamentos, seguir uma dieta ou mudar hábitos, corresponde às recomendações combinadas com um profissional de saúde EV A. A palavra combinadas é central: adesão pressupõe acordo, não obediência.
Para medir com precisão, a taxonomia europeia ABC, publicada em 2012, divide a adesão a medicamentos em três fases EV B:
- Início: a pessoa toma a primeira dose depois da prescrição.
- Implementação: o quanto as doses tomadas correspondem ao esquema prescrito, dia após dia.
- Descontinuação: o momento em que a pessoa para. O tempo entre o início e a parada é a persistência.
A definição da OMS inclui hábitos. Seguir um plano de alimentação, caminhar com regularidade ou manter um horário de sono também é adesão, e os mesmos princípios valem: combinar metas realistas, reduzir o atrito do dia a dia e acompanhar de perto no início.
Separar as fases ajuda a escolher a intervenção. Quem nunca inicia precisa de algo diferente de quem toma de forma irregular ou de quem para no terceiro mês.
O tamanho do problema no Brasil e no mundo
O relatório da OMS de 2003 sobre terapias de longo prazo estimou que, em países desenvolvidos, a adesão em doenças crônicas fica em torno de 50%. Uma revisão publicada no JAMA em 2018 resume o quadro mais recente: entre adultos com doença crônica, 30% a 50% dos medicamentos não são tomados como prescrito EV A.
No Brasil, o dado de referência vem da PNAUM, a Pesquisa Nacional sobre Acesso, Utilização e Promoção do Uso Racional de Medicamentos, um inquérito domiciliar com amostra probabilística da população. Medida por questionário validado, a baixa adesão ao tratamento medicamentoso de doenças crônicas foi de 30,8% EV B. Os grupos com maior prevalência foram:
| Fator | Associação com baixa adesão |
|---|---|
| Idade | Maior entre adultos jovens |
| Escolaridade | Maior entre quem nunca estudou |
| Região | Maior no Nordeste e no Centro-Oeste |
| Custo | Maior entre quem paga parte do tratamento |
| Saúde | Maior com pior autopercepção de saúde, três ou mais doenças e limitação causada pela doença |
| Esquema | Maior entre quem usa cinco ou mais medicamentos |
A tabela já sugere onde agir: simplificar esquemas, reduzir barreiras de custo e dar suporte extra a quem convive com várias condições. Para o peso econômico dessas condições, veja o custo das doenças crônicas no Brasil.
Por que a adesão muda o resultado clínico
A metanálise de Chowdhury e colegas, publicada no European Heart Journal em 2013, reuniu 44 estudos prospectivos com quase 2 milhões de participantes EV A. Os achados principais:
- Só 60% dos participantes tinham boa adesão, definida como tomar 80% ou mais das doses, aos medicamentos cardiovasculares.
- Com boa adesão, a chance de doença cardiovascular foi 15% menor para estatinas e 19% menor para anti-hipertensivos, em comparação com adesão baixa.
- Os autores estimaram que cerca de 9% dos eventos cardiovasculares na Europa podem ser atribuídos à baixa adesão.
O raciocínio vale além do coração. Um tratamento eficaz no ensaio só entrega o benefício no mundo real se for iniciado, tomado de forma consistente e mantido. Por isso adesão é um tema de resultado clínico, e não só de comportamento. O mesmo vale para hábitos: pressão arterial, hemoglobina glicada e LDL respondem tanto à constância no remédio quanto à constância na rotina.
Como medir adesão
Não existe método perfeito. A escolha depende do uso: cuidado individual, gestão de população ou pesquisa.
| Método | Vantagem | Limite |
|---|---|---|
| Autorrelato com questionário validado | Barato, prático na consulta, mostra motivos | Tende a superestimar a adesão |
| Proporção de dias cobertos (PDC) por dados de dispensação | Objetivo, escalável para populações | Retirar o remédio não garante tomar |
| Monitor eletrônico (frasco com registro) | Registra o horário de cada abertura | Custo, uso restrito a estudos |
| Desfecho intermediário (pressão, glicada) | Mostra o efeito final | Mistura adesão com resposta ao tratamento |
A revisão do JAMA de 2018 observa que o autorrelato é o método mais prático na rotina, mas superestima a adesão quando comparado a monitores eletrônicos e a dados de farmácia EV A. Em programas populacionais, o PDC com corte de 80% é o padrão mais comum, e a combinação com uma pergunta aberta sobre dificuldades costuma revelar o que o número esconde.
Para gestão de população, três números acompanhados ao longo do tempo dizem muito: a proporção de pessoas que iniciam o tratamento em até 30 dias depois da prescrição, o PDC médio aos 6 e aos 12 meses e a curva de persistência, que mostra em que mês as interrupções se concentram. Esse último dado costuma apontar exatamente onde o suporte rende mais.
O que funciona para melhorar a adesão
A revisão do JAMA de 2018 analisou 49 ensaios randomizados com seguimento de pelo menos 6 meses e encontrou seis categorias de intervenção: educação do paciente, simplificação do esquema, consulta com farmacêutico clínico, terapias cognitivo-comportamentais, lembretes e incentivos EV A. Entre as mais práticas na rotina, as maiores melhoras absolutas observadas foram:
- Combinações em dose fixa, com menos comprimidos por dia: até 10%.
- Consulta com farmacêutico clínico no cuidado compartilhado da doença crônica: até 15%.
- Lembretes, como ligações para reposição: até 33%.
A revisão Cochrane, com 182 ensaios, é o contrapeso necessário EV A. Os estudos com menor viés usavam intervenções complexas, com vários componentes e suporte contínuo de profissionais como farmacêuticos, às vezes com apoio de família e pares. Mesmo as mais efetivas não produziram ganhos grandes, e não houve uma característica comum que explicasse o sucesso.
A conclusão prática: não há bala de prata. Funciona melhor o que combina menos atrito no esquema, contato humano recorrente e atenção à fase em que a pessoa está. Programas estruturados com esse desenho são discutidos em programa de suporte ao paciente.
O papel de cada ator
- Médico e equipe da clínica: combinar o plano com o paciente, simplificar sempre que possível, perguntar sobre dificuldades sem julgamento e revisar a lista de medicamentos em quem usa muitos.
- Farmacêutico: orientar na dispensação, identificar interações e lacunas de reposição.
- Operadora e saúde corporativa: usar dados de utilização para identificar quem interrompeu e oferecer suporte, sem usar dados de saúde para seleção. Veja gestão de saúde populacional.
- Indústria farmacêutica: apoiar programas educacionais e de acompanhamento, com separação entre ciência e promoção e respeito à LGPD.
- Gestor de saúde corporativa: facilitar o acesso a consultas de retorno e reduzir barreiras práticas, como horário e deslocamento, que pesam mais para quem trabalha em turnos.
- Paciente e família: participar da decisão, falar dos efeitos colaterais e das barreiras de custo, que estão entre os fatores mais associados à baixa adesão no Brasil.
Dados contínuos como apoio à adesão
Uma parte da adesão é invisível na consulta: o que acontece nos 90 dias entre um retorno e outro. Dados contínuos de sono, frequência cardíaca de repouso, variabilidade da frequência cardíaca e atividade não medem se o comprimido foi tomado, mas mostram como a pessoa está respondendo à rotina e ao tratamento, e dão assunto concreto para a próxima conversa. Lembretes de reposição, que nos ensaios estão entre as intervenções com maior melhora observada, ficam mais úteis quando chegam no contexto certo, por exemplo perto da data em que o medicamento deve acabar.
Há também um ganho menos óbvio. Quando a pessoa vê a própria evolução, como uma frequência cardíaca de repouso mais baixa depois de semanas de caminhada ou um sono mais regular, o tratamento deixa de ser abstrato. Esse retorno visível não substitui a orientação profissional, mas dá à conversa clínica um ponto de partida concreto e compartilhado. Para o uso clínico desses dados, veja dados de wearables na consulta.
Como a Piantare apoia a indústria farmacêutica
A Piantare se organiza como infraestrutura de saúde e longevidade: une exames, DNA, wearables e hábitos num lugar só e traduz isso em decisões. Na solução Piantare Farma, a indústria estrutura programas de cuidado coordenado, por exemplo em tratamentos com canetas de GLP-1 e no cuidado cardiometabólico, com acompanhamento contínuo de sono e coração pelo paciente e o DNA como camada opcional. A evidência de mundo real é gerada com consentimento, protocolo e comitê de ética, sem promoção de medicamento ao paciente.
Perguntas frequentes
Qual a taxa de adesão ao tratamento de doenças crônicas no Brasil?
A PNAUM, pesquisa nacional de base populacional, encontrou baixa adesão ao tratamento medicamentoso de doenças crônicas em 30,8% das pessoas, medida por questionário validado.
Qual a diferença entre adesão e persistência?
Adesão descreve o quanto as doses tomadas correspondem ao prescrito. Persistência é o tempo entre o início e a interrupção do tratamento.
Qual o corte usado para considerar boa adesão?
O mais comum é tomar 80% ou mais das doses, ou ter 80% ou mais de dias cobertos pelo medicamento no período analisado.
Lembretes por celular melhoram a adesão?
Lembretes estão entre as intervenções com maior melhora observada em ensaios, de até 33% em termos absolutos, mas o efeito varia e costuma ser maior quando combinado com suporte humano.
Por que pessoas com várias doenças aderem menos?
Na PNAUM, ter três ou mais doenças e usar cinco ou mais medicamentos foram associados a baixa adesão. Esquemas complexos aumentam o esforço diário e a chance de erro.
Fontes
- World Health Organization. Adherence to long-term therapies: evidence for action. Geneva: WHO, 2003. iris.who.int/handle/10665/42682 · Evidência A
- Tavares NUL, Bertoldi AD, Mengue SS et al. Factors associated with low adherence to medicine treatment for chronic diseases in Brazil. Revista de Saúde Pública, 2016;50(suppl 2):10s. PMID 27982378. doi.org/10.1590/S1518-8787.2016050006150 · Evidência B
- Chowdhury R, Khan H, Heydon E et al. Adherence to cardiovascular therapy: a meta-analysis of prevalence and clinical consequences. European Heart Journal, 2013;34(38):2940-2948. PMID 23907142. doi.org/10.1093/eurheartj/eht295 · Evidência A
- Vrijens B, De Geest S, Hughes DA et al. A new taxonomy for describing and defining adherence to medications. British Journal of Clinical Pharmacology, 2012;73(5):691-705. PMID 22486599. doi.org/10.1111/j.1365-2125.2012.04167.x · Evidência B
- Kini V, Ho PM. Interventions to Improve Medication Adherence: A Review. JAMA, 2018;320(23):2461-2473. PMID 30561486. doi.org/10.1001/jama.2018.19271 · Evidência A
- Nieuwlaat R, Wilczynski N, Navarro T et al. Interventions for enhancing medication adherence. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2014;(11):CD000011. PMID 25412402. doi.org/10.1002/14651858.CD000011.pub4 · Evidência A