Para profissionais · Canetas de GLP-1
Acompanhamento de pacientes em uso de GLP-1: equipe, indicadores e regras no Brasil
Interrupção no mundo real, massa muscular, nutrição e a regra de retenção de receita: o que um acompanhamento multiprofissional precisa cobrir.

Acompanhar pacientes em uso de GLP-1 vai além da prescrição: inclui manejo de efeitos gastrointestinais, nutrição, preservação de massa muscular e suporte para manter o plano. Num estudo com 125.474 adultos com sobrepeso ou obesidade nos Estados Unidos, 64,8% dos que não tinham diabetes tipo 2 interromperam o tratamento em até 1 ano, contra 46,5% dos que tinham diabetes.
Neste texto
- Por que o acompanhamento define o resultado
- O que mudou na regra brasileira
- Interrupção: o dado que mais pesa no mundo real
- A equipe multiprofissional na prática
- Massa muscular: medir, não supor
- Indicadores de acompanhamento
- Programas estruturados e evidência
- Como a Piantare apoia a indústria farmacêutica
- Perguntas frequentes
- Fontes
Por que o acompanhamento define o resultado
Os ensaios que tornaram as canetas de GLP-1 conhecidas combinaram medicamento e orientação de estilo de vida. No STEP 1, publicado no New England Journal of Medicine em 2021, a perda média de peso em 68 semanas foi de 14,9% com semaglutida e de 2,4% com placebo, com os dois grupos recebendo intervenção de estilo de vida EV A.
Fora do ensaio, o cenário muda. Um posicionamento conjunto de quatro sociedades americanas, publicado em 2025 no American Journal of Clinical Nutrition e na Obesity, resume que os GLP-1 reduzem o peso entre 5% e 18% nos ensaios, com efeitos um pouco menores em análises de mundo real EV B. Os desafios citados são efeitos gastrointestinais, deficiências nutricionais pela menor ingestão, perda de massa muscular e óssea, baixa adesão de longo prazo com recuperação de peso e custo alto.
Cada um desses desafios tem um responsável natural na equipe. É por isso que o acompanhamento multiprofissional deixou de ser diferencial e passou a ser parte do tratamento. A decisão de iniciar, ajustar ou parar continua sendo do médico com o paciente.
O que mudou na regra brasileira
Desde 23 de junho de 2025, farmácias e drogarias retêm a receita de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida. A mudança veio com a RDC nº 973/2025, que alterou a RDC nº 471/2021, e com a Instrução Normativa nº 360/2025 EV A. Os pontos principais, segundo o documento de perguntas e respostas da Anvisa:
- A receita é emitida em 2 vias, em receituário do prescritor ou do estabelecimento, sem modelo específico.
- A receita vale por 90 dias a partir da emissão.
- Farmácias registram a dispensação em livro ou sistema informatizado.
Em fevereiro de 2026, a Anvisa publicou o comunicado de farmacovigilância nº 02/2026 sobre pancreatite aguda associada ao uso fora das indicações aprovadas em bula EV A. A agência afirmou que a relação entre benefício e eventos adversos não mudou para o uso aprovado e reforçou duas condutas: suspender o medicamento diante de suspeita de pancreatite e notificar eventos adversos no VigiMed. Para o acompanhamento, isso significa orientar o paciente a procurar atendimento diante de dor abdominal intensa e persistente e ter um fluxo claro de notificação.
Interrupção: o dado que mais pesa no mundo real
O maior estudo de interrupção publicado até agora, no JAMA Network Open em 2025, acompanhou 125.474 adultos com sobrepeso ou obesidade que iniciaram liraglutida, semaglutida ou tirzepatida entre 2018 e 2023, a partir de prontuários de sistemas de saúde dos Estados Unidos EV B.
| Achado | Com diabetes tipo 2 | Sem diabetes tipo 2 |
|---|---|---|
| Interrupção em 1 ano | 46,5% | 64,8% |
| Retomada em 1 ano, entre quem interrompeu | 47,3% | 36,3% |
| Efeito gastrointestinal moderado ou grave sobre a chance de interromper | 38% maior | 19% maior |
Cada 1% a mais de peso perdido se associou a cerca de 3% menos chance de interrupção. O que acontece depois também importa: na extensão do STEP 1, um ano depois de parar o tratamento e a intervenção de estilo de vida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido, e a maior parte dos marcadores cardiometabólicos voltou perto do ponto inicial EV B.
Os dois dados apontam para o mesmo lugar: manejar bem os efeitos gastrointestinais nas primeiras semanas e construir hábitos que sustentem o resultado são as alavancas mais concretas do acompanhamento. Veja também adesão ao tratamento em doenças crônicas.
A equipe multiprofissional na prática
O posicionamento de 2025 lista prioridades para antes e durante o tratamento EV B. Antes de iniciar: metas centradas no paciente, triagem de hábitos alimentares, gatilhos emocionais e comportamento alimentar transtornado, exame com força, função e composição corporal, determinantes sociais e avaliação de atividade aeróbica, treino de força, sono, estresse, uso de substâncias e conexões sociais. Durante o uso: manejo de efeitos gastrointestinais, prevenção de deficiências nutricionais e preservação de músculo e osso.
| Profissional | Foco no acompanhamento |
|---|---|
| Médico | Indicação, ajuste, comorbidades, exames, decisão de manter ou parar |
| Nutricionista | Qualidade da dieta com menor apetite, proteína adequada, sintomas gastrointestinais, deficiências |
| Profissional de educação física ou fisioterapeuta | Treino de força, função e mobilidade |
| Enfermagem ou farmacêutico | Técnica de aplicação, adesão, sinais que pedem reavaliação, notificação de eventos |
| Psicólogo | Comportamento alimentar, imagem corporal, manutenção depois do tratamento |
O documento também cita como estratégias de apoio consultas em grupo, acompanhamento com nutricionista, telessaúde e plataformas digitais.
Massa muscular: medir, não supor
Parte do peso perdido com GLP-1 é massa magra, e a proporção varia muito entre estudos. A revisão de Neeland, Linge e Birkenfeld, de 2024, mostra estudos em que a massa magra respondeu por 40% a 60% do peso perdido e outros em que respondeu por cerca de 15% ou menos EV B. Massa magra inclui órgãos, ossos e água, então o número não equivale a músculo. Em estudos com ressonância, a redução do volume muscular pareceu proporcional ao esperado para a idade e o peso perdido, e a qualidade do músculo tendeu a melhorar.
Para a prática, a recomendação do posicionamento de 2025 é clara: preservar músculo e osso com treino de força e alimentação adequada, e medir força e função, não só composição corporal. Força de preensão e testes simples de levantar da cadeira cabem em qualquer consultório. Registrar esses testes na linha de base é o que permite comparar depois. Sem o ponto de partida, uma perda de força passa despercebida até aparecer como dificuldade no dia a dia. Em pessoas mais velhas, a atenção é maior pela chance de sarcopenia.
Indicadores de acompanhamento
| Domínio | Indicador | Frequência sugerida |
|---|---|---|
| Peso e composição | Peso, circunferência abdominal, composição corporal | Mensal no início; depois a cada consulta |
| Força e função | Força de preensão, teste de sentar e levantar | Na linha de base e periodicamente |
| Metabólico | Hemoglobina glicada, perfil lipídico, função renal | Conforme o médico |
| Tolerância | Náusea, vômitos, constipação, dor abdominal | Semanal nas primeiras semanas |
| Adesão | Persistência, aplicações registradas | Contínua |
| Rotina | Passos, sono, frequência cardíaca de repouso | Contínua, por wearable |
| Experiência | Desfechos relatados pelo paciente, qualidade de vida | Trimestral |
Dados contínuos de rotina, como passos e sono, ajudam a ver se o hábito acompanha o medicamento. Para metas de movimento, veja quantos passos por dia. Para quem quer entender o que os grandes ensaios mostraram além do peso, há o texto sobre canetas de GLP-1 além do peso.
Programas estruturados e evidência
Na prática, o acompanhamento costuma se organizar em três fases, cada uma com foco próprio:
- Início, nas primeiras semanas: contato mais frequente, orientação sobre aplicação, manejo de náusea e mudanças de apetite, ajuste da alimentação para manter proteína e hidratação. É a fase em que efeitos gastrointestinais mais levam à interrupção.
- Consolidação, nos meses seguintes: treino de força regular, metas de passos e sono, revisão de exames e de força e função. O foco passa da tolerância para a construção de hábitos.
- Manutenção ou transição: se o médico e o paciente decidirem reduzir ou parar o medicamento, os hábitos construídos são o que sustenta o resultado. O posicionamento de 2025 lista as prioridades nutricionais para manter o peso depois da interrupção como uma área que ainda pede mais estudo.
Clínicas, operadoras e indústria têm interesse no mesmo resultado: o paciente certo, bem acompanhado, que mantém o plano e preserva função. Programas estruturados de suporte, com contato humano recorrente e dados de rotina, são a forma de entregar isso em escala. Quando desenhados com protocolo e comitê de ética desde o início, também geram evidência de mundo real sobre efetividade, tolerância e persistência no Brasil, um dado que ainda é escasso. O desenho desses programas está em programa de suporte ao paciente.
Como a Piantare apoia a indústria farmacêutica
A Piantare se organiza como infraestrutura de saúde e longevidade, unindo exames, DNA, wearables e hábitos num lugar só. Na solução Piantare Farma, a indústria estrutura programas de cuidado coordenado para tratamentos com canetas de GLP-1, com acompanhamento contínuo de sono, coração e atividade e o DNA como camada opcional, como o Piantare Helix, com relatório de resposta a medicamentos. A evidência de mundo real é gerada com consentimento, protocolo e comitê de ética, sem promoção de medicamento ao paciente.
Perguntas frequentes
Quantos pacientes interrompem o GLP-1 no primeiro ano?
Num estudo com 125.474 adultos nos Estados Unidos, 64,8% dos que não tinham diabetes tipo 2 e 46,5% dos que tinham interromperam em até 1 ano. Efeitos gastrointestinais moderados ou graves aumentaram a chance de interrupção.
A receita de GLP-1 fica retida na farmácia?
Sim. Desde 23 de junho de 2025, pela RDC nº 973/2025 e pela IN nº 360/2025, a receita é emitida em 2 vias, vale por 90 dias e fica retida na dispensação.
Quem deve fazer parte da equipe de acompanhamento?
Médico, nutricionista e profissional de exercício são o núcleo. Enfermagem, farmacêutico e psicólogo agregam no manejo de efeitos, na adesão e no comportamento alimentar.
Como preservar massa muscular durante o tratamento?
O posicionamento conjunto de 2025 recomenda treino de força e alimentação adequada, com medida de força e função, além da composição corporal. Ajustes individuais são feitos pela equipe.
O que acontece depois que o paciente para o GLP-1?
Na extensão do STEP 1, um ano depois de parar medicamento e intervenção de estilo de vida, os participantes recuperaram em média cerca de dois terços do peso perdido.
Fontes
- Rodriguez PJ, Zhang V, Gratzl S et al. Discontinuation and Reinitiation of Dual-Labeled GLP-1 Receptor Agonists Among US Adults With Overweight or Obesity. JAMA Network Open, 2025;8(1):e2457349. PMID 39888616. doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2024.57349 · Evidência B
- Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint Advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. American Journal of Clinical Nutrition, 2025;122(1):344-367. PMID 40450457. doi.org/10.1016/j.ajcnut.2025.04.023 · Evidência B
- Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). New England Journal of Medicine, 2021;384(11):989-1002. PMID 33567185. doi.org/10.1056/NEJMoa2032183 · Evidência A
- Wilding JPH, Batterham RL, Davies M et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022;24(8):1553-1564. PMID 35441470. doi.org/10.1111/dom.14725 · Evidência B
- Neeland IJ, Linge J, Birkenfeld AL. Changes in lean body mass with glucagon-like peptide-1-based therapies and mitigation strategies. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2024;26 Suppl 4:16-27. PMID 38937282. doi.org/10.1111/dom.15728 · Evidência B
- Anvisa. Perguntas e respostas: RDC nº 973/2025 e IN nº 360/2025, medicamentos agonistas do receptor de GLP-1. Junho de 2025. www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/medicamentos/controlados/perguntas_respostas_glp1_2025_06_v1_final.pdf · Evidência A
- Anvisa. Comunicado de farmacovigilância nº 02/2026 sobre pancreatite aguda associada ao uso de agonistas de GLP-1 fora das indicações aprovadas. Fevereiro de 2026. www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-emite-alerta-para-risco-de-pancreatite-aguda-associada-ao-uso-indevido-de-canetas-emagrecedoras · Evidência A