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Acompanhamento de pacientes em uso de GLP-1: equipe, indicadores e regras no Brasil

Interrupção no mundo real, massa muscular, nutrição e a regra de retenção de receita: o que um acompanhamento multiprofissional precisa cobrir.

Publicado30 set 2026
Leitura9 min
Acompanhamento de pacientes em uso de GLP-1: equipe, indicadores e regras no Brasil
Resposta direta

Acompanhar pacientes em uso de GLP-1 vai além da prescrição: inclui manejo de efeitos gastrointestinais, nutrição, preservação de massa muscular e suporte para manter o plano. Num estudo com 125.474 adultos com sobrepeso ou obesidade nos Estados Unidos, 64,8% dos que não tinham diabetes tipo 2 interromperam o tratamento em até 1 ano, contra 46,5% dos que tinham diabetes.

Neste texto

  1. Por que o acompanhamento define o resultado
  2. O que mudou na regra brasileira
  3. Interrupção: o dado que mais pesa no mundo real
  4. A equipe multiprofissional na prática
  5. Massa muscular: medir, não supor
  6. Indicadores de acompanhamento
  7. Programas estruturados e evidência
  8. Como a Piantare apoia a indústria farmacêutica
  9. Perguntas frequentes
  10. Fontes

Por que o acompanhamento define o resultado

Os ensaios que tornaram as canetas de GLP-1 conhecidas combinaram medicamento e orientação de estilo de vida. No STEP 1, publicado no New England Journal of Medicine em 2021, a perda média de peso em 68 semanas foi de 14,9% com semaglutida e de 2,4% com placebo, com os dois grupos recebendo intervenção de estilo de vida EV A.

Fora do ensaio, o cenário muda. Um posicionamento conjunto de quatro sociedades americanas, publicado em 2025 no American Journal of Clinical Nutrition e na Obesity, resume que os GLP-1 reduzem o peso entre 5% e 18% nos ensaios, com efeitos um pouco menores em análises de mundo real EV B. Os desafios citados são efeitos gastrointestinais, deficiências nutricionais pela menor ingestão, perda de massa muscular e óssea, baixa adesão de longo prazo com recuperação de peso e custo alto.

Cada um desses desafios tem um responsável natural na equipe. É por isso que o acompanhamento multiprofissional deixou de ser diferencial e passou a ser parte do tratamento. A decisão de iniciar, ajustar ou parar continua sendo do médico com o paciente.

O que mudou na regra brasileira

Desde 23 de junho de 2025, farmácias e drogarias retêm a receita de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, como semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida. A mudança veio com a RDC nº 973/2025, que alterou a RDC nº 471/2021, e com a Instrução Normativa nº 360/2025 EV A. Os pontos principais, segundo o documento de perguntas e respostas da Anvisa:

Em fevereiro de 2026, a Anvisa publicou o comunicado de farmacovigilância nº 02/2026 sobre pancreatite aguda associada ao uso fora das indicações aprovadas em bula EV A. A agência afirmou que a relação entre benefício e eventos adversos não mudou para o uso aprovado e reforçou duas condutas: suspender o medicamento diante de suspeita de pancreatite e notificar eventos adversos no VigiMed. Para o acompanhamento, isso significa orientar o paciente a procurar atendimento diante de dor abdominal intensa e persistente e ter um fluxo claro de notificação.

Interrupção: o dado que mais pesa no mundo real

O maior estudo de interrupção publicado até agora, no JAMA Network Open em 2025, acompanhou 125.474 adultos com sobrepeso ou obesidade que iniciaram liraglutida, semaglutida ou tirzepatida entre 2018 e 2023, a partir de prontuários de sistemas de saúde dos Estados Unidos EV B.

AchadoCom diabetes tipo 2Sem diabetes tipo 2
Interrupção em 1 ano46,5%64,8%
Retomada em 1 ano, entre quem interrompeu47,3%36,3%
Efeito gastrointestinal moderado ou grave sobre a chance de interromper38% maior19% maior

Cada 1% a mais de peso perdido se associou a cerca de 3% menos chance de interrupção. O que acontece depois também importa: na extensão do STEP 1, um ano depois de parar o tratamento e a intervenção de estilo de vida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido, e a maior parte dos marcadores cardiometabólicos voltou perto do ponto inicial EV B.

Os dois dados apontam para o mesmo lugar: manejar bem os efeitos gastrointestinais nas primeiras semanas e construir hábitos que sustentem o resultado são as alavancas mais concretas do acompanhamento. Veja também adesão ao tratamento em doenças crônicas.

A equipe multiprofissional na prática

O posicionamento de 2025 lista prioridades para antes e durante o tratamento EV B. Antes de iniciar: metas centradas no paciente, triagem de hábitos alimentares, gatilhos emocionais e comportamento alimentar transtornado, exame com força, função e composição corporal, determinantes sociais e avaliação de atividade aeróbica, treino de força, sono, estresse, uso de substâncias e conexões sociais. Durante o uso: manejo de efeitos gastrointestinais, prevenção de deficiências nutricionais e preservação de músculo e osso.

ProfissionalFoco no acompanhamento
MédicoIndicação, ajuste, comorbidades, exames, decisão de manter ou parar
NutricionistaQualidade da dieta com menor apetite, proteína adequada, sintomas gastrointestinais, deficiências
Profissional de educação física ou fisioterapeutaTreino de força, função e mobilidade
Enfermagem ou farmacêuticoTécnica de aplicação, adesão, sinais que pedem reavaliação, notificação de eventos
PsicólogoComportamento alimentar, imagem corporal, manutenção depois do tratamento

O documento também cita como estratégias de apoio consultas em grupo, acompanhamento com nutricionista, telessaúde e plataformas digitais.

Massa muscular: medir, não supor

Parte do peso perdido com GLP-1 é massa magra, e a proporção varia muito entre estudos. A revisão de Neeland, Linge e Birkenfeld, de 2024, mostra estudos em que a massa magra respondeu por 40% a 60% do peso perdido e outros em que respondeu por cerca de 15% ou menos EV B. Massa magra inclui órgãos, ossos e água, então o número não equivale a músculo. Em estudos com ressonância, a redução do volume muscular pareceu proporcional ao esperado para a idade e o peso perdido, e a qualidade do músculo tendeu a melhorar.

Para a prática, a recomendação do posicionamento de 2025 é clara: preservar músculo e osso com treino de força e alimentação adequada, e medir força e função, não só composição corporal. Força de preensão e testes simples de levantar da cadeira cabem em qualquer consultório. Registrar esses testes na linha de base é o que permite comparar depois. Sem o ponto de partida, uma perda de força passa despercebida até aparecer como dificuldade no dia a dia. Em pessoas mais velhas, a atenção é maior pela chance de sarcopenia.

Indicadores de acompanhamento

DomínioIndicadorFrequência sugerida
Peso e composiçãoPeso, circunferência abdominal, composição corporalMensal no início; depois a cada consulta
Força e funçãoForça de preensão, teste de sentar e levantarNa linha de base e periodicamente
MetabólicoHemoglobina glicada, perfil lipídico, função renalConforme o médico
TolerânciaNáusea, vômitos, constipação, dor abdominalSemanal nas primeiras semanas
AdesãoPersistência, aplicações registradasContínua
RotinaPassos, sono, frequência cardíaca de repousoContínua, por wearable
ExperiênciaDesfechos relatados pelo paciente, qualidade de vidaTrimestral

Dados contínuos de rotina, como passos e sono, ajudam a ver se o hábito acompanha o medicamento. Para metas de movimento, veja quantos passos por dia. Para quem quer entender o que os grandes ensaios mostraram além do peso, há o texto sobre canetas de GLP-1 além do peso.

Programas estruturados e evidência

Na prática, o acompanhamento costuma se organizar em três fases, cada uma com foco próprio:

Clínicas, operadoras e indústria têm interesse no mesmo resultado: o paciente certo, bem acompanhado, que mantém o plano e preserva função. Programas estruturados de suporte, com contato humano recorrente e dados de rotina, são a forma de entregar isso em escala. Quando desenhados com protocolo e comitê de ética desde o início, também geram evidência de mundo real sobre efetividade, tolerância e persistência no Brasil, um dado que ainda é escasso. O desenho desses programas está em programa de suporte ao paciente.

Como a Piantare apoia a indústria farmacêutica

A Piantare se organiza como infraestrutura de saúde e longevidade, unindo exames, DNA, wearables e hábitos num lugar só. Na solução Piantare Farma, a indústria estrutura programas de cuidado coordenado para tratamentos com canetas de GLP-1, com acompanhamento contínuo de sono, coração e atividade e o DNA como camada opcional, como o Piantare Helix, com relatório de resposta a medicamentos. A evidência de mundo real é gerada com consentimento, protocolo e comitê de ética, sem promoção de medicamento ao paciente.

Perguntas frequentes

Quantos pacientes interrompem o GLP-1 no primeiro ano?

Num estudo com 125.474 adultos nos Estados Unidos, 64,8% dos que não tinham diabetes tipo 2 e 46,5% dos que tinham interromperam em até 1 ano. Efeitos gastrointestinais moderados ou graves aumentaram a chance de interrupção.

A receita de GLP-1 fica retida na farmácia?

Sim. Desde 23 de junho de 2025, pela RDC nº 973/2025 e pela IN nº 360/2025, a receita é emitida em 2 vias, vale por 90 dias e fica retida na dispensação.

Quem deve fazer parte da equipe de acompanhamento?

Médico, nutricionista e profissional de exercício são o núcleo. Enfermagem, farmacêutico e psicólogo agregam no manejo de efeitos, na adesão e no comportamento alimentar.

Como preservar massa muscular durante o tratamento?

O posicionamento conjunto de 2025 recomenda treino de força e alimentação adequada, com medida de força e função, além da composição corporal. Ajustes individuais são feitos pela equipe.

O que acontece depois que o paciente para o GLP-1?

Na extensão do STEP 1, um ano depois de parar medicamento e intervenção de estilo de vida, os participantes recuperaram em média cerca de dois terços do peso perdido.

Fontes

  1. Rodriguez PJ, Zhang V, Gratzl S et al. Discontinuation and Reinitiation of Dual-Labeled GLP-1 Receptor Agonists Among US Adults With Overweight or Obesity. JAMA Network Open, 2025;8(1):e2457349. PMID 39888616. doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2024.57349 · Evidência B
  2. Mozaffarian D, Agarwal M, Aggarwal M et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: a joint Advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and The Obesity Society. American Journal of Clinical Nutrition, 2025;122(1):344-367. PMID 40450457. doi.org/10.1016/j.ajcnut.2025.04.023 · Evidência B
  3. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). New England Journal of Medicine, 2021;384(11):989-1002. PMID 33567185. doi.org/10.1056/NEJMoa2032183 · Evidência A
  4. Wilding JPH, Batterham RL, Davies M et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022;24(8):1553-1564. PMID 35441470. doi.org/10.1111/dom.14725 · Evidência B
  5. Neeland IJ, Linge J, Birkenfeld AL. Changes in lean body mass with glucagon-like peptide-1-based therapies and mitigation strategies. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2024;26 Suppl 4:16-27. PMID 38937282. doi.org/10.1111/dom.15728 · Evidência B
  6. Anvisa. Perguntas e respostas: RDC nº 973/2025 e IN nº 360/2025, medicamentos agonistas do receptor de GLP-1. Junho de 2025. www.gov.br/anvisa/pt-br/centraisdeconteudo/publicacoes/medicamentos/controlados/perguntas_respostas_glp1_2025_06_v1_final.pdf · Evidência A
  7. Anvisa. Comunicado de farmacovigilância nº 02/2026 sobre pancreatite aguda associada ao uso de agonistas de GLP-1 fora das indicações aprovadas. Fevereiro de 2026. www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2026/anvisa-emite-alerta-para-risco-de-pancreatite-aguda-associada-ao-uso-indevido-de-canetas-emagrecedoras · Evidência A

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