Inovação · Metabolismo
Canetas de GLP-1: o que a ciência mostrou além do peso
Coração, rins, fígado e músculo: o que os grandes ensaios já provaram e o que ainda está em teste.

As canetas de GLP-1 foram criadas para diabetes e obesidade, mas os ensaios de desfecho mostraram efeitos além da balança. No SELECT, com 17.604 pessoas com doença cardiovascular e sobrepeso, sem diabetes, a semaglutida reduziu em 20% os eventos cardiovasculares maiores em relação ao placebo. No FLOW, em diabetes com doença renal, a queda nos eventos renais graves foi de 24%.
Neste texto
- O que são as canetas de GLP-1
- O ponto de partida: perda de peso em ensaios grandes
- Coração: o que o ensaio SELECT mostrou
- Rins: o que o ensaio FLOW mostrou
- Fígado: um resultado de fase 3 ainda em andamento
- E a massa muscular?
- O que ainda não sabemos
- O que isso muda para você
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que são as canetas de GLP-1
GLP-1 é um hormônio que o intestino libera depois das refeições. Ele avisa o pâncreas para liberar insulina quando a glicose sobe, deixa o esvaziamento do estômago mais lento e conversa com áreas do cérebro ligadas à saciedade. As chamadas canetas de GLP-1 são medicamentos injetáveis que imitam esse sinal por muito mais tempo do que o hormônio natural.
A semaglutida (vendida como Ozempic e Wegovy) age no receptor de GLP-1. A tirzepatida (Mounjaro) age em dois receptores ao mesmo tempo, o de GLP-1 e o de GIP, outro hormônio intestinal. As duas nasceram para o diabetes tipo 2 e depois foram estudadas em obesidade.
Este texto é jornalismo científico: descreve o que os estudos mostraram. Ele não é indicação. Quem pode usar, por quanto tempo e com que acompanhamento é uma decisão entre a pessoa e o médico.
O ponto de partida: perda de peso em ensaios grandes
A fama das canetas veio de dois ensaios de fase 3, randomizados e controlados por placebo, ambos em pessoas sem diabetes.
| Ensaio | Participantes | Duração | Resultado no peso |
|---|---|---|---|
| STEP 1 (semaglutida), NEJM 2021 | 1.961 adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidade | 68 semanas | Queda média de 14,9% do peso, contra 2,4% no placebo EV A |
| SURMOUNT-1 (tirzepatida), NEJM 2022 | 2.539 adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidade | 72 semanas | Queda média de 15,0% a 20,9% conforme o grupo, contra 3,1% no placebo EV A |
Os dois estudos combinaram o medicamento com orientação de estilo de vida, e os efeitos colaterais mais comuns foram gastrointestinais, como náusea e diarreia, em geral leves a moderados. Perder peso, porém, é um desfecho intermediário. A pergunta que a medicina faz em seguida é outra: isso se traduz em menos infartos, menos AVCs, rins preservados, mais anos com saúde?
Coração: o que o ensaio SELECT mostrou
O SELECT, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, foi desenhado para responder essa pergunta no coração. Ele incluiu 17.604 pessoas com 45 anos ou mais, com doença cardiovascular já estabelecida, índice de massa corporal de 27 ou mais e sem diabetes. Metade recebeu semaglutida semanal e metade, placebo. O acompanhamento médio foi de 39,8 meses EV A.
O desfecho principal foi um combinado de eventos cardiovasculares maiores, que inclui infarto e AVC. Ele ocorreu em 6,5% do grupo semaglutida e em 8,0% do grupo placebo, uma redução relativa de 20% (hazard ratio de 0,80). Foi a primeira vez que um medicamento para obesidade mostrou, num ensaio desse tamanho, menos eventos cardiovasculares em pessoas sem diabetes.
Dois cuidados de leitura:
- Quem estava no estudo. Eram pessoas que já tinham doença cardiovascular. O resultado não pode ser estendido automaticamente a quem nunca teve um evento.
- Tolerância. Os eventos adversos que levaram a parar o tratamento foram mais frequentes com semaglutida (16,6%) do que com placebo (8,2%).
Para entender o que pesa no coração além do peso, vale ler sobre ApoB e sobre gordura visceral.
Rins: o que o ensaio FLOW mostrou
O FLOW, também no New England Journal of Medicine, em 2024, estudou 3.533 pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. O desfecho principal reunia os eventos renais graves, como necessidade de diálise ou transplante e queda de pelo menos 50% na função dos rins, além dos desfechos mais graves de causa renal ou cardiovascular EV A.
Com seguimento mediano de 3,4 anos, esse desfecho foi 24% menor no grupo semaglutida (hazard ratio de 0,76). O estudo foi encerrado antes do previsto, por recomendação do comitê independente, porque a análise interina já mostrava o benefício. Outros resultados apontaram na mesma direção:
- a perda anual de função renal foi mais lenta, em 1,16 ml/min/1,73 m² por ano;
- os eventos cardiovasculares maiores foram 18% menores;
- eventos adversos graves foram registrados em 49,6% do grupo semaglutida e em 53,8% do grupo placebo.
O limite aqui é o mesmo do SELECT: o resultado vale para o perfil estudado, pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal. Ele não diz nada, por si, sobre quem tem rins saudáveis.
Fígado: um resultado de fase 3 ainda em andamento
A esteato-hepatite associada à disfunção metabólica, chamada MASH, é a forma inflamatória da gordura no fígado e pode evoluir para fibrose. Em 2025, o New England Journal of Medicine publicou a análise interina de um ensaio de fase 3 com semaglutida em 800 pessoas com MASH e fibrose moderada a avançada, comprovada por biópsia EV A.
Depois de 72 semanas, a resolução da esteato-hepatite sem piora da fibrose ocorreu em 62,9% do grupo semaglutida e em 34,3% do grupo placebo. A redução da fibrose sem piora da inflamação foi vista em 36,8% e 22,4%, respectivamente.
É um avanço importante, com uma ressalva clara: o estudo continua até 240 semanas, e a parte que vai mostrar se essas mudanças na biópsia se traduzem em menos cirrose e menos complicações do fígado ainda não foi publicada.
E a massa muscular?
Quando o peso cai rápido, parte do que se perde não é gordura. Essa é uma das dúvidas mais frequentes sobre as canetas, e a ciência ainda não tem uma resposta única.
Uma revisão publicada em 2024 na Diabetes, Obesity and Metabolism, assinada por Neeland, Linge e Birkenfeld, reuniu os dados disponíveis EV B. Os principais pontos:
- Os resultados variam muito entre estudos. Em alguns, a massa magra respondeu por 40% a 60% do peso perdido. Em outros, por cerca de 15% ou menos.
- Massa magra não é sinônimo de músculo. A medida inclui órgãos, ossos, líquidos e a água do tecido gordo.
- Em estudos com ressonância magnética, a redução do volume muscular pareceu proporcional ao esperado para a idade, a condição de saúde e o peso perdido, e a qualidade do músculo, com menos gordura infiltrada, tendeu a melhorar.
- Idade mais avançada e doença mais grave pedem atenção maior na escolha de quem usa, pela chance de sarcopenia.
Os autores pedem que os próximos estudos meçam força, função e mobilidade, e não só a composição corporal. Enquanto isso, o que se sabe de forma consistente sobre músculo continua valendo para qualquer pessoa: treino de força e proteína adequada na alimentação são a base da preservação muscular, com ou sem medicamento.
O que ainda não sabemos
A ciência das canetas de GLP-1 avançou rápido, e por isso algumas perguntas ainda estão abertas.
- O que acontece ao parar. Na extensão do STEP 1, um ano depois de interromper o tratamento e a intervenção de estilo de vida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido, e a maior parte dos marcadores cardiometabólicos voltou perto do ponto inicial EV B. Os autores leem isso como sinal de que a obesidade é uma condição crônica.
- Prevenção primária. Ainda não há ensaio de desfecho publicado mostrando menos eventos cardiovasculares em quem nunca teve doença cardiovascular.
- Uso por décadas. Os ensaios de desfecho duram de 3 a 4 anos. Os efeitos de um uso muito mais longo seguem em observação.
- Cérebro, vícios e outras condições. Há estudos em andamento em diversas áreas. Até que ensaios de desfecho sejam publicados, são hipóteses, não indicações.
- Músculo e função. Como vimos, falta medir força e capacidade física com o mesmo rigor com que se mede o peso.
Separar o provado do provável é o que permite usar bem um avanço. Hoje, o que está provado em ensaio de fase 3 é: perda de peso relevante, menos eventos cardiovasculares em quem já tem doença cardiovascular e sobrepeso, proteção renal em diabetes com doença renal e melhora da biópsia hepática em MASH.
O que isso muda para você
Quem está pensando nas canetas, ou já as usa, ganha muito ao acompanhar mais do que a balança: hemoglobina glicada, perfil lipídico, função renal, sono, frequência cardíaca, passos e força. A Piantare se organiza como infraestrutura de saúde e longevidade: une num lugar só exames, DNA, wearables e hábitos, e traduz tudo em decisões para mais anos com saúde. No app Piantare, que está em lançamento, o Mapa da Longevidade reúne os exames que você envia e os dados do Apple Saúde, do Google Health, do Strava e do Ring PRO, e a PIÁ responde com base nos seus dados e em estudos. A decisão sobre qualquer tratamento continua sendo sua com o seu médico. O app ajuda a levar a história completa para a consulta.
Perguntas frequentes
Canetas de GLP-1 protegem o coração de qualquer pessoa?
O ensaio SELECT mostrou 20% menos eventos cardiovasculares maiores em pessoas com doença cardiovascular já estabelecida e sobrepeso, sem diabetes. Para quem nunca teve doença cardiovascular, ainda não há ensaio de desfecho publicado.
Qual a diferença entre semaglutida e tirzepatida?
A semaglutida age no receptor do hormônio GLP-1. A tirzepatida age nos receptores de GLP-1 e de GIP ao mesmo tempo. A escolha entre elas, ou entre usar ou não, é uma decisão médica.
As canetas fazem perder músculo?
Parte do peso perdido é massa magra, em proporções que variam muito entre estudos. Uma revisão de 2024 sugere que a mudança muscular parece proporcional à perda de peso, mas pede estudos que meçam força e função.
O peso volta quando se para de usar?
Na extensão do STEP 1, um ano após parar o tratamento e a intervenção de estilo de vida, os participantes recuperaram cerca de dois terços do peso perdido, em média.
As canetas tratam gordura no fígado?
Uma análise interina de fase 3 publicada em 2025 mostrou melhora na biópsia de pessoas com MASH e fibrose moderada a avançada. O estudo continua para avaliar desfechos de longo prazo.
Fontes
- Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes (SELECT). New England Journal of Medicine, 2023;389(24):2221-2232. PMID 37952131. doi.org/10.1056/NEJMoa2307563 · Evidência A
- Perkovic V, Tuttle KR, Rossing P et al. Effects of Semaglutide on Chronic Kidney Disease in Patients with Type 2 Diabetes (FLOW). New England Journal of Medicine, 2024;391(2):109-121. PMID 38785209. doi.org/10.1056/NEJMoa2403347 · Evidência A
- Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). New England Journal of Medicine, 2021;384(11):989-1002. PMID 33567185. doi.org/10.1056/NEJMoa2032183 · Evidência A
- Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity (SURMOUNT-1). New England Journal of Medicine, 2022;387(3):205-216. PMID 35658024. doi.org/10.1056/NEJMoa2206038 · Evidência A
- Sanyal AJ, Newsome PN, Kliers I et al. Phase 3 Trial of Semaglutide in Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis. New England Journal of Medicine, 2025;392(21):2089-2099. PMID 40305708. doi.org/10.1056/NEJMoa2413258 · Evidência A
- Neeland IJ, Linge J, Birkenfeld AL. Changes in lean body mass with glucagon-like peptide-1-based therapies and mitigation strategies. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2024;26 Suppl 4:16-27. PMID 38937282. doi.org/10.1111/dom.15728 · Evidência B
- Wilding JPH, Batterham RL, Davies M et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2022;24(8):1553-1564. PMID 35441470. doi.org/10.1111/dom.14725 · Evidência B