Genética · Li-Fraumeni
Síndrome de Li-Fraumeni: o gene TP53, a variante brasileira R337H e o acompanhamento
O que é a síndrome, por que o Sul do Brasil tem uma variante própria e como a vigilância organizada muda a história das famílias.

A síndrome de Li-Fraumeni é uma predisposição hereditária a vários tipos de câncer, causada por variantes no gene TP53. No Brasil, ela tem uma marca própria: a variante R337H. No Paraná, a triagem de 171.649 recém-nascidos encontrou a variante em 0,27% deles (Custódio, JCO 2013). Acompanhamento planejado e aconselhamento genético fazem diferença para essas famílias.
Neste texto
- O que é a síndrome de Li-Fraumeni
- TP53: o guardião do genoma
- Quais cânceres e em que idade
- A variante brasileira R337H
- Quem deve conversar sobre o teste
- Vigilância: o que muda com o acompanhamento
- Aconselhamento genético e a família
- Como a Piantare apoia essa decisão
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é a síndrome de Li-Fraumeni
A síndrome de Li-Fraumeni, também chamada de LFS, é uma condição hereditária que aumenta a predisposição a diferentes tipos de câncer, muitas vezes em idades mais jovens que o habitual. Ela leva o nome dos médicos Frederick Li e Joseph Fraumeni, que descreveram as primeiras famílias nos Estados Unidos.
A causa é uma variante patogênica no gene TP53. A herança é autossômica dominante: basta uma cópia alterada, vinda da mãe ou do pai, e cada filho ou filha de uma pessoa portadora tem 50% de chance de herdá-la.
Falar dessa síndrome pede cuidado e acolhimento. As estimativas de chance são altas, e é natural sentir medo ao ler sobre elas. Ao mesmo tempo, é uma das áreas da oncogenética em que o acompanhamento organizado mostrou resultados mais claros. Este guia explica as duas coisas.
TP53: o guardião do genoma
O TP53 guarda a receita da proteína p53. Ela funciona como um sistema de freio: quando o DNA de uma célula sofre dano, a p53 interrompe a divisão celular para que o erro seja reparado ou, se o dano for grande demais, leva a célula a se desligar. Por isso, ela ganhou o apelido de guardião do genoma.
Quem nasce com uma cópia alterada do TP53 tem esse freio enfraquecido em todas as células. Os tecidos ficam mais vulneráveis ao acúmulo de erros, e isso explica a variedade de cânceres associados à síndrome.
Nem toda variante tem o mesmo efeito. Um estudo francês com 415 portadores mostrou que variantes do tipo missense dominante-negativo se associaram a tumores mais cedo, com média de 21,3 anos, do que variantes de perda de função, com média de 28,5 anos EV B. O tipo de variante é uma das informações que o aconselhamento genético ajuda a interpretar.
Quais cânceres e em que idade
No mesmo estudo francês, a idade média do primeiro tumor foi de 24,9 anos, e 41% dos portadores afetados tiveram o primeiro tumor até os 18 anos EV B. O espectro muda com a idade:
| Fase da vida | Tumores mais frequentes |
|---|---|
| Infância | osteossarcoma, carcinoma adrenocortical, tumores do sistema nervoso central e sarcomas de partes moles |
| Vida adulta | câncer de mama (em 79% das mulheres afetadas no estudo) e sarcomas de partes moles |
O estudo de Li-Fraumeni do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos acompanhou 286 portadores de 107 famílias EV B. A chance acumulada de algum câncer chegou a 50% aos 31 anos nas mulheres e aos 46 anos nos homens, e ficou perto de 100% aos 70 anos. Entre as mulheres, a chance de câncer de mama até os 70 anos foi de 54%. Cerca de metade das pessoas que tiveram um câncer desenvolveu um segundo tumor, em média 10 anos depois.
Esses números vêm de famílias com histórico marcante e talvez não representem todos os portadores, em especial os da variante brasileira, que tem efeito mais brando. Eles mostram, sobretudo, por que o acompanhamento precisa ser contínuo e começar cedo.
A variante brasileira R337H
O Brasil tem uma história particular com o TP53. Especialmente no Sul do país, uma variante específica, chamada R337H, é muito mais comum do que as variantes de TP53 vistas em outros lugares.
- Origem do achado. A R337H foi descrita em crianças do Sul do Brasil com tumores adrenocorticais. Depois, pesquisadores brasileiros mostraram que ela também aparece em famílias com o quadro de Li-Fraumeni, com câncer de mama, tumores cerebrais e sarcomas. Entre 45 famílias com critérios para a síndrome, 13 tinham variantes em TP53, e 6 delas eram R337H EV C.
- Frequência na população. Em 750 mulheres saudáveis de um programa de rastreamento de câncer de mama em Porto Alegre, 0,3% carregavam a R337H, uma frequência de 10 a 20 vezes maior que a de outras variantes de TP53 EV C.
- Triagem de recém-nascidos. No Paraná, 171.649 bebês foram testados, e 461 (0,27%) eram portadores. As crianças que participaram da vigilância tiveram tumores adrenocorticais detectados menores, numa fase em que o tratamento é mais simples EV B.
A R337H costuma ser descrita como de penetrância menor que as variantes clássicas: muitas pessoas que a carregam não desenvolvem câncer. Isso torna o aconselhamento genético ainda mais importante, porque a leitura de um resultado R337H é diferente da leitura de outras variantes de TP53.
Quem deve conversar sobre o teste
Os critérios mais usados para indicar o teste de TP53 são os critérios de Chompret, revisados a partir de dados franceses, e os critérios do NCCN, atualizados em 2023 EV A. Em resumo, eles consideram:
- uma pessoa com tumor típico da síndrome antes dos 46 anos e um parente próximo com tumor do mesmo espectro;
- pessoas com vários tumores primários, sendo o primeiro em idade jovem;
- crianças com carcinoma adrenocortical ou carcinoma de plexo coroide, em qualquer idade;
- mulheres com câncer de mama muito jovens, em geral antes dos 31 anos;
- variante de TP53 já conhecida na família.
No estudo francês, a taxa de detecção de variante foi de 45% em crianças com carcinoma adrenocortical, de 42% em crianças com carcinoma de plexo coroide e de 6% em mulheres com câncer de mama antes dos 31 anos sem outros sinais da síndrome EV B. Esses critérios são aplicados por profissionais, com a família inteira em vista. O artigo sobre histórico de saúde familiar ajuda a reunir as informações.
Vigilância: o que muda com o acompanhamento
Em Toronto, uma equipe criou em 2004 um protocolo de vigilância para portadores de TP53 que combina consulta clínica, exames de sangue e exames de imagem, como ressonância magnética de corpo inteiro, ressonância de crânio e ressonância de mama.
O acompanhamento de 11 anos, com 89 portadores de 39 famílias, comparou quem escolheu fazer a vigilância com quem preferiu não fazer EV B. A vigilância detectou 40 tumores sem sintomas em 19 pessoas. Cinco anos depois do diagnóstico, 88,8% das pessoas do grupo com vigilância estavam vivas, contra 59,6% no grupo sem vigilância.
Com base nesses dados, um painel internacional da Associação Americana de Pesquisa em Câncer recomendou em 2017 que toda pessoa com Li-Fraumeni receba vigilância a partir do diagnóstico, com uma versão adaptada do protocolo de Toronto EV A. O painel também destacou a importância do apoio psicológico às famílias.
Além da vigilância, as orientações costumam incluir evitar radiação desnecessária quando houver alternativa, decisão que fica com a equipe médica. Hábitos como não fumar e se proteger do sol fazem parte do cuidado diário.
Aconselhamento genético e a família
Receber um diagnóstico de Li-Fraumeni é um momento delicado, e ninguém precisa atravessá-lo sozinho. O aconselhamento genético ajuda a entender o tipo de variante, a planejar a vigilância de adultos e crianças e a decidir como conversar com os parentes.
O teste de crianças tem considerações próprias, porque a vigilância pode começar ainda na infância. Essa decisão é tomada pelos pais com a equipe médica, pesando benefícios e o impacto emocional. Boa parte do que se sabe sobre a R337H foi produzida por grupos de oncogenética brasileiros, o que ajuda na interpretação local dos resultados. Para entender as opções de acesso, veja teste genético pelo SUS e plano de saúde.
Um resultado positivo para TP53 não diz quando, onde nem se um câncer vai aparecer. As estimativas vêm de grupos de famílias e variam com o tipo de variante, com o sexo e com a história de cada família.
Ele também não define a vida de ninguém. Muitas famílias com Li-Fraumeni organizam a rotina de exames como parte do calendário, mantêm hábitos que favorecem a saúde e encontram apoio em grupos de pacientes. O aconselhamento ajuda a encontrar esse equilíbrio entre cuidado e vida normal.
Como a Piantare apoia essa decisão
O Piantare Alpha é a camada clínica do nosso laboratório: sequenciamento de 100 genes de predisposição hereditária, com laudo médico, que inclui BRCA1 e BRCA2. O resultado fica privado até você decidir abrir, para que a decisão de saber aconteça no seu tempo. Se a sua família tem casos que lembram a síndrome, confirme no aconselhamento se o painel escolhido cobre o TP53. O Alpha custa R$ 2.983. Ele faz parte da visão da Piantare como infraestrutura de saúde e longevidade: o laudo pode ficar guardado no Open Health, junto com os seus exames, sob o seu controle. Antes e depois do teste, o caminho recomendado é o aconselhamento genético com um profissional habilitado.
Perguntas frequentes
A síndrome de Li-Fraumeni é comum no Brasil?
As variantes clássicas de TP53 são raras. No Sul do Brasil, porém, a variante R337H é bem mais frequente: foi encontrada em 0,27% dos recém-nascidos testados no Paraná.
Ter a variante R337H é o mesmo que ter Li-Fraumeni clássica?
Não exatamente. A R337H é descrita como de penetrância menor, e muitas pessoas que a carregam não desenvolvem câncer. A interpretação e o acompanhamento são definidos com o aconselhamento genético.
Quais exames fazem parte da vigilância de Li-Fraumeni?
O protocolo de Toronto combina consulta clínica, exames de sangue e ressonâncias, como a de corpo inteiro, a de crânio e a de mama. A frequência e a idade de início variam e são definidas pela equipe médica.
Crianças devem fazer o teste de TP53?
Como a vigilância pode começar na infância, o teste de crianças de famílias portadoras costuma ser discutido. A decisão é dos pais, com a equipe médica e o aconselhamento genético.
A síndrome de Li-Fraumeni pula gerações?
A herança é dominante, então não pula gerações no sentido genético. Pode parecer que pula quando um portador não desenvolve câncer, por isso o teste é mais confiável que a observação da árvore.
Fontes
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- Kratz CP, Achatz MI, Brugières L et al. Cancer screening recommendations for individuals with Li-Fraumeni syndrome. Clinical Cancer Research, 2017;23(11):e38-e45. doi.org/10.1158/1078-0432.CCR-17-0408 · Evidência A
- Daly MB, Pal T, Maxwell KN et al. NCCN Guidelines Insights: Genetic/Familial High-Risk Assessment: Breast, Ovarian, and Pancreatic, Version 2.2024 (critérios de teste para TP53 e síndrome de Li-Fraumeni). Journal of the National Comprehensive Cancer Network, 2023;21(10):1000-1010. doi.org/10.6004/jnccn.2023.0051 · Evidência A