Inovação · Diagnóstico
Exames de sangue que procuram vários cânceres de uma vez: o que a ciência já mostrou
Como funcionam os testes multicâncer, o que os grandes estudos mediram e por que eles ainda não substituem o rastreamento tradicional.

Os testes multicâncer procuram, numa amostra de sangue, fragmentos de DNA liberados por tumores. No maior ensaio randomizado, com mais de 142 mil pessoas na Inglaterra, o teste não reduziu os diagnósticos de câncer em estágio III ou IV após três rodadas anuais. Quando o resultado deu positivo, cerca de metade das pessoas tinha câncer confirmado.
Neste texto
- Como funciona um teste multicâncer
- O desempenho em laboratório
- PATHFINDER: o primeiro teste em pessoas sem sintomas
- NHS-Galleri: o grande ensaio randomizado
- Valor preditivo e falsos positivos, em termos simples
- Onde essa tecnologia está hoje
- O que ainda não sabemos
- Como acompanhar
- Perguntas frequentes
- Fontes
Como funciona um teste multicâncer
As células do corpo se renovam o tempo todo e, nesse processo, liberam pequenos fragmentos de DNA no sangue. Esse material é chamado de DNA livre circulante. Quando existe um tumor, parte desses fragmentos vem dele.
Os testes multicâncer, conhecidos pela sigla em inglês MCED, tentam encontrar esse sinal. O mais estudado deles lê padrões de metilação, as marcas químicas que ficam sobre o DNA e indicam quais genes estão ligados ou desligados. Tumores têm padrões de metilação diferentes dos tecidos saudáveis, e cada tecido tem uma assinatura própria. Um algoritmo de aprendizado de máquina compara o padrão encontrado com milhares de amostras e responde duas perguntas:
- Existe um sinal compatível com câncer?
- Se existe, de que órgão ou tecido ele provavelmente vem?
A segunda resposta, chamada de origem do sinal, orienta quais exames de imagem e de laboratório o médico pede para confirmar ou descartar o achado. O teste não dá diagnóstico. Ele indica onde procurar.
A metilação é o mesmo tipo de marca usada pelos relógios que estimam a idade biológica. Contamos essa história em relógios epigenéticos.
O desempenho em laboratório
Antes de testar em pessoas sem sintomas, o teste foi validado num estudo caso-controle, o CCGA, que comparou 2.823 pessoas com câncer já diagnosticado e 1.254 sem câncer EV B. Os resultados mostram bem o ponto forte e o ponto fraco da tecnologia.
| Medida | Resultado |
|---|---|
| Especificidade (negativo em quem não tem câncer) | 99,5% |
| Sensibilidade geral (positivo em quem tem câncer) | 51,5% |
| Sensibilidade no estágio I | 16,8% |
| Sensibilidade no estágio II | 40,4% |
| Sensibilidade no estágio III | 77,0% |
| Sensibilidade no estágio IV | 90,1% |
| Acerto da origem do sinal, entre os positivos verdadeiros | 88,7% |
A especificidade alta é o que torna a ideia viável: poucos alarmes falsos numa população sem câncer. A sensibilidade baixa nos estágios iniciais é o desafio central. Tumores pequenos liberam pouco DNA, e é justamente neles que a detecção precoce faria mais diferença.
PATHFINDER: o primeiro teste em pessoas sem sintomas
O estudo PATHFINDER, publicado na The Lancet em 2023, ofereceu o teste a 6.662 adultos de 50 anos ou mais, sem sinais de câncer, em sete redes de saúde dos Estados Unidos. Era um estudo de coorte, sem grupo controle, desenhado para entender o que acontece depois de um resultado positivo EV B.
- O sinal de câncer apareceu em 92 pessoas, 1,4% das que tiveram resultado analisável.
- Em 35 delas (38%), o câncer foi confirmado.
- Em 57 (62%), não foi encontrado câncer: eram falsos positivos.
- O tempo mediano até a resposta final foi de 79 dias. Para quem teve falso positivo, foi de 162 dias.
- Entre os falsos positivos, 93% fizeram exames de imagem, mas poucos passaram por procedimentos invasivos e só um por cirurgia.
Os autores concluíram que o rastreamento é viável e que ainda faltava pesquisa sobre a utilidade clínica, ou seja, se o teste melhora a vida de quem o faz. Vale notar que 91,7% dos participantes eram brancos, o que limita a generalização.
O caminho depois de um positivo
Uma análise posterior do mesmo estudo acompanhou 39 participantes com sinal de câncer detectado numa versão aprimorada do teste. Em 82% deles, a primeira rodada de investigação chegou a uma resposta, quase sempre guiada pela origem do sinal indicada pelo exame. Os outros 18% precisaram de mais testes porque a suspeita continuava, e todos chegaram a uma conclusão: três com câncer e quatro sem. A imagem de corpo inteiro ajudou a resolver só 49% dos casos EV C. Na prática, isso mostra que um positivo abre um percurso de exames que pode levar semanas ou meses e que precisa de coordenação médica.
NHS-Galleri: o grande ensaio randomizado
A pergunta decisiva só pode ser respondida por um ensaio randomizado. O NHS-Galleri, feito pelo sistema público de saúde da Inglaterra, sorteou 142.250 pessoas de 50 a 77 anos: metade teve o sangue testado por até três anos seguidos, metade teve o sangue apenas guardado. Os resultados foram publicados em setembro de 2026 no New England Journal of Medicine e na Nature Medicine EV A.
O desfecho principal
O objetivo era reduzir os diagnósticos de câncer em estágio III ou IV entre 12 tipos pré-definidos. Isso não aconteceu: a taxa foi praticamente igual nos dois grupos, com razão de 1,03 e intervalo de confiança de 0,92 a 1,14. Para o estágio IV, um desfecho secundário, a razão foi de 0,86, com intervalo de 0,74 a 1,00, no limite da significância. Menos de 1% dos participantes teve eventos adversos ligados ao estudo, nenhum grave.
O desempenho do teste na população
| Medida, por rodada anual | Resultado |
|---|---|
| Resultados positivos | 0,80% a 1,03% |
| Positivos com câncer confirmado (valor preditivo positivo) | 45,8% a 58,0% |
| Especificidade | 99,50% a 99,60% |
| Sensibilidade para todos os cânceres | 26,7% a 37,2% |
| Sensibilidade para os 12 tipos pré-definidos | 47,6% a 63,4% |
| Acerto da origem do sinal | 91,1% a 93,6% |
Esses dados de desempenho vêm de análises descritivas, sem teste de hipótese EV B. Os autores pedem acompanhamento mais longo para ver como a diferença no estágio IV evolui.
Valor preditivo e falsos positivos, em termos simples
Dois números ajudam a ler qualquer exame de rastreamento:
- Valor preditivo positivo: de cada 100 pessoas com resultado positivo, quantas têm câncer. No NHS-Galleri, entre 46 e 58, conforme a rodada. É alto para um rastreamento, mas significa que perto de metade dos positivos passou por investigação e não tinha câncer.
- Sensibilidade: de cada 100 cânceres que surgem, quantos o teste encontra. No mesmo estudo, entre 27 e 37 considerando todos os tipos. A maioria dos cânceres do período não foi detectada pelo exame de sangue.
A consequência prática é clara: um resultado negativo não descarta câncer. Os próprios estudos foram desenhados para somar aos programas de rastreamento já estabelecidos, como os de mama, colo do útero e intestino, e não para substituí-los. Saiba quais exames fazem sentido em cada fase da vida em check-up completo.
Onde essa tecnologia está hoje
Nos Estados Unidos, o pedido de aprovação do teste mais estudado foi levado pela FDA a um comitê consultivo de especialistas em setembro de 2026 EV D. A decisão final cabe à agência. Uma revisão publicada na Nature Reviews Clinical Oncology em 2025 resume o momento: os primeiros testes são promissores, mas ainda não se sabe se o desempenho atual é suficiente para gerar benefício clínico EV C.
Há também uma lógica por trás do foco no estágio. Em boa parte dos tumores sólidos, quanto mais cedo o diagnóstico, mais opções de tratamento existem e menos agressivas elas tendem a ser. É por isso que o NHS-Galleri escolheu o estágio como desfecho: se o teste antecipasse diagnósticos, os casos avançados deveriam cair. Como isso não aconteceu de forma significativa em três rodadas, a pergunta segue aberta. Para quem tem histórico familiar importante, a investigação de câncer hereditário é um caminho com regras mais claras hoje.
No Brasil, decisões sobre exames de rastreamento passam pela avaliação de diretrizes e da Anvisa. Qualquer pedido desse exame é uma conversa com o médico, que pesa histórico pessoal e familiar, idade e o que fazer com cada resultado possível.
O que ainda não sabemos
- Se o teste faz as pessoas viverem mais e melhor. O NHS-Galleri mediu o estágio do diagnóstico, um desfecho intermediário. O efeito em anos de vida com saúde exige acompanhamento mais longo.
- Como o sinal no estágio IV vai evoluir. A diferença ficou no limite estatístico e pode crescer ou desaparecer com o tempo.
- O custo do falso positivo. Exames extras, tempo de espera e ansiedade entram na conta e ainda são pouco medidos.
- A validade em populações diversas. Os estudos foram feitos majoritariamente com pessoas brancas nos Estados Unidos e na Inglaterra.
- Custo-efetividade. Se compensa oferecer o teste em larga escala, e para quem, ainda não tem resposta.
Como acompanhar
Enquanto a detecção pelo sangue amadurece, conhecer a própria predisposição é uma camada que já tem uso clínico estabelecido. O Piantare Alpha sequencia 100 genes com laudo médico e cobre predisposições hereditárias, como câncer hereditário, um tema que explicamos em painel genético para câncer hereditário. Ele não detecta tumores no sangue: lê o DNA herdado. Custa R$ 2.983. No app da Piantare, os exames que você envia ficam guardados num lugar só, o que ajuda a manter o rastreamento em dia, parte da visão de uma infraestrutura de saúde e longevidade sob o seu controle.
Perguntas frequentes
Existe exame de sangue que detecta qualquer câncer?
Não. Os testes multicâncer procuram sinais de dezenas de tipos, mas deixam passar boa parte dos tumores, principalmente os iniciais. No NHS-Galleri, a sensibilidade para todos os cânceres ficou entre 27% e 37%.
O resultado negativo garante que não tenho câncer?
Não. Um negativo não descarta a doença, e os exames de rastreamento recomendados para a sua idade continuam necessários.
Se o resultado der positivo, eu tenho câncer?
Não necessariamente. Nos estudos, cerca de metade dos positivos teve câncer confirmado. O resultado orienta exames de imagem e laboratório para investigar.
O teste mostra onde está o câncer?
Ele estima o órgão ou tecido de origem do sinal. No NHS-Galleri, essa estimativa acertou entre 91% e 94% das vezes nos casos confirmados, e serviu para orientar os exames seguintes.
Esse exame substitui mamografia ou colonoscopia?
Não. Os estudos foram desenhados para somar a esses programas, que têm benefício comprovado, e não para substituí-los.
Fontes
- Klein EA, Richards D, Cohn A et al. Clinical validation of a targeted methylation-based multi-cancer early detection test using an independent validation set. Annals of Oncology, 2021;32(9):1167-1177. doi.org/10.1016/j.annonc.2021.05.806 · Evidência B
- Schrag D, Beer TM, McDonnell CH et al. Blood-based tests for multicancer early detection (PATHFINDER): a prospective cohort study. Lancet, 2023;402(10409):1251-1260. doi.org/10.1016/S0140-6736(23)01700-2 · Evidência B
- Marinac CR, McDonnell CH, Nadauld LD et al. Clinical evaluation of cancer signal origin prediction and diagnostic resolution following multicancer early detection testing in the PATHFINDER study. Cancer Prevention Research, 2025;18(8):475-483. doi.org/10.1158/1940-6207.CAPR-24-0468 · Evidência C
- Sasieni P, Johnson P, Round T et al. Effect of screening with multicancer early-detection test on late-stage cancer diagnosis. New England Journal of Medicine, 2026;395(14):1374-1386. doi.org/10.1056/NEJMoa2505723 · Evidência A
- Neal RD, Dolly S, Johnson P et al. Performance of a multi-cancer early detection test in the randomized controlled NHS-Galleri trial. Nature Medicine, 2026;32(10):3770-3780. doi.org/10.1038/s41591-026-04652-8 · Evidência B
- Wan JCM, Sasieni P, Rosenfeld N. Promises and pitfalls of multi-cancer early detection using liquid biopsy tests. Nature Reviews Clinical Oncology, 2025;22(8):566-580. doi.org/10.1038/s41571-025-01033-x · Evidência C
- U.S. Food and Drug Administration. September 23, 2026: Molecular and Clinical Genetics Panel of the Medical Devices Advisory Committee Meeting (página oficial). www.fda.gov/advisory-committees/advisory-committee-calendar/september-23-2026-molecular-and-clinical-genetics-panel-medical-devices-advisory-committee-meeting · Evidência D