Genética · Câncer de ovário
Câncer de ovário hereditário: quais genes importam e quem deve conversar sobre teste
Por que quase 1 em cada 4 casos tem origem herdada, quais genes contam e como o aconselhamento genético ajuda a família.

Câncer de ovário hereditário é o que surge a partir de uma variante genética herdada, principalmente em BRCA1 e BRCA2, mas também em genes como RAD51C, RAD51D, BRIP1 e os da síndrome de Lynch. Num estudo com 360 mulheres com câncer de ovário, 24% carregavam uma variante herdada, e mais de 30% delas não tinham histórico familiar (Walsh, PNAS 2011).
Neste texto
- O que é câncer de ovário hereditário
- Quantos casos têm origem herdada
- Os genes e a chance de cada um
- Por que a genética pesa tanto neste câncer
- Quem deve conversar sobre o teste
- Aconselhamento genético e a família
- Dúvidas e mitos comuns
- Como a Piantare apoia essa decisão
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é câncer de ovário hereditário
O câncer de ovário reúne tumores que começam no ovário, na tuba uterina ou no peritônio, a membrana que reveste o abdome. Os estudos de genética costumam tratá-los juntos, porque compartilham a mesma biologia e os mesmos genes de predisposição.
Ele é hereditário quando a mulher nasceu com uma variante em um gene que ajuda a reparar o DNA. A variante vem da mãe ou do pai e está em todas as células. Ela não causa o câncer sozinha, mas reduz uma das defesas da célula e aumenta a predisposição.
No Brasil, o INCA estima 8.020 casos novos de câncer de ovário por ano no triênio 2026-2028 EV B. É um número bem menor que o do câncer de mama. Ainda assim, entre os cânceres ginecológicos, este é o que tem a maior parcela de origem herdada.
Quantos casos têm origem herdada
Dois estudos sem seleção por idade ou histórico familiar ajudam a dimensionar.
Em Seattle, 360 mulheres com câncer de ovário, tuba ou peritônio foram sequenciadas logo no diagnóstico. No total, 24% tinham uma variante herdada de perda de função: 18% em BRCA1 ou BRCA2 e 6% em outros genes, como BRIP1, PALB2, RAD51C e TP53. Mais de 30% das portadoras não tinham histórico familiar de câncer de mama ou de ovário, e mais de 35% tinham 60 anos ou mais no diagnóstico EV B.
Num estudo maior, com 1.915 mulheres, 18% carregavam variantes patogênicas em genes ligados ao câncer de ovário. BRCA1 e BRCA2 responderam por 15%, os genes de reparo de pareamento, ligados à síndrome de Lynch, por 0,4%, e genes como BRIP1, RAD51C, RAD51D, PALB2 e BARD1 por 3,3%. Raça, tipo histológico e local do tumor não previram quem tinha a variante EV B.
A mensagem prática é clara: idade mais avançada e ausência de casos na família não excluem a origem hereditária. Por isso, as diretrizes do NCCN indicam avaliação genética para toda pessoa com câncer epitelial de ovário, em qualquer idade EV A.
Os genes e a chance de cada um
As estimativas abaixo são a chance acumulada de câncer de ovário até os 80 anos em portadoras. Elas ajudam a comparar genes, mas variam com o histórico familiar e devem ser lidas com o seu profissional.
| Gene | Chance estimada até os 80 anos |
|---|---|
| BRCA1 | 44% |
| BRCA2 | 17% |
| RAD51D | 13% |
| RAD51C | 11% |
| PALB2 | 5% |
Os dados de BRCA1 e BRCA2 vêm de uma coorte prospectiva com quase 10 mil portadoras EV B. Os de RAD51C e RAD51D vêm de mais de 6 mil famílias; nesse estudo, a chance podia chegar a 32% a 36% em portadoras com duas parentes de primeiro grau afetadas EV B. O número de PALB2 vem de 524 famílias EV B.
Os genes da síndrome de Lynch também aumentam a predisposição ao câncer de ovário, além do câncer de intestino e de endométrio. Eles aparecem com menos frequência, mas costumam fazer parte dos painéis de câncer ginecológico.
Por que a genética pesa tanto neste câncer
Para muitos tumores, existe um exame de rastreamento para a população geral. Para o câncer de ovário, isso ainda não existe de forma eficaz.
O UKCTOCS, um dos maiores ensaios clínicos já feitos sobre o tema, randomizou 202.638 mulheres de 50 a 74 anos no Reino Unido para rastreamento anual com exame de sangue e ultrassom, só ultrassom ou nenhum rastreamento. Depois de cerca de 16 anos, o rastreamento encontrou mais casos em estágio inicial, mas não melhorou o desfecho final da doença. Os autores concluíram que o rastreamento da população geral não pode ser recomendado EV A.
É aqui que a genética faz diferença. Saber que existe uma predisposição herdada permite que a equipe médica proponha estratégias de prevenção pensadas para aquela pessoa, no momento certo da vida. Essas decisões dependem do gene, da idade e dos planos de cada mulher, inclusive sobre ter filhos, e são sempre tomadas em conjunto com o médico.
Quem deve conversar sobre o teste
Com base nas diretrizes do NCCN, vale buscar avaliação genética nestes casos EV A:
- diagnóstico pessoal de câncer epitelial de ovário, tuba ou peritônio, em qualquer idade;
- parente de primeiro ou segundo grau com câncer de ovário;
- casos de câncer de mama em idade jovem, de pâncreas ou de próstata metastático na família;
- histórico familiar sugestivo de síndrome de Lynch, como câncer de intestino ou de endométrio em idade jovem;
- variante patogênica já identificada em algum parente de sangue.
Para quem já teve o diagnóstico, o teste também pode influenciar escolhas de tratamento, e essa conversa acontece com a oncologista. Para quem ainda não teve câncer, o teste de uma parente afetada costuma ser o melhor ponto de partida, porque mostra o que procurar no restante da família. O guia de painel genético para câncer hereditário explica como os painéis são montados.
Se ninguém da família pode ser testado, o teste da pessoa saudável também é possível. Nesse caso, um resultado negativo é menos conclusivo, e o aconselhamento ajuda a ler o que ele significa.
Aconselhamento genético e a família
O aconselhamento genético organiza a decisão. Antes do teste, o profissional monta a árvore da família, estima a chance de encontrar uma variante e explica os resultados possíveis. Depois, ele traduz o laudo e ajuda a pensar em quem mais deve ser avisado.
Cada filho ou filha de uma pessoa portadora tem 50% de chance de herdar a variante, e homens também podem herdar e transmitir. Um irmão que carrega BRCA2, por exemplo, pode passá-lo às filhas. O teste em cascata, feito nos parentes depois que uma variante é encontrada, é uma das formas mais eficientes de levar prevenção a uma família inteira.
Receber essa informação mexe com a gente. O aconselhamento também acolhe o lado emocional: o medo, a culpa de ter transmitido e a dúvida sobre contar aos parentes. Não existe pressa nem resposta única.
Dúvidas e mitos comuns
Herdei só do lado da mãe?
Não necessariamente. As variantes de BRCA1, BRCA2 e dos outros genes podem vir do pai. Como os homens não têm ovários, um pai portador pode não ter nenhum caso de câncer de ovário na própria história, e a variante passa despercebida por uma geração. Por isso, o lado paterno também entra na árvore da família.
Sem casos na família, não é hereditário?
Também não. No estudo de Seattle, mais de 30% das mulheres com variante herdada não tinham histórico familiar de câncer de mama ou de ovário. Famílias pequenas, parentes que fizeram cirurgias por outros motivos e informações perdidas entre gerações explicam parte disso.
Os exames de rotina detectam câncer de ovário?
O exame preventivo do colo do útero não foi feito para isso. E, como mostrou o UKCTOCS, mesmo exames de sangue e ultrassom feitos todo ano não mudaram o desfecho final na população geral. Essa é uma das razões para dar tanto peso à informação genética.
Ter a variante significa que vou ter câncer de ovário?
Não. Mesmo em BRCA1, o gene de efeito mais forte, a maioria das estimativas indica que muitas portadoras não desenvolvem câncer de ovário até os 80 anos. O resultado abre espaço para planejar, com a equipe médica, o que faz sentido em cada fase da vida.
Já tive câncer de ovário. O teste ainda serve para alguma coisa?
Serve, e muito. Ele pode influenciar escolhas de tratamento, que você discute com a sua oncologista, e é a informação mais valiosa para irmãs, filhas, filhos e sobrinhos. Para entender como a genética de mama e ovário se conectam, veja o guia de câncer de mama hereditário.
Como a Piantare apoia essa decisão
O Piantare Alpha é a camada clínica do nosso laboratório: sequenciamento de 100 genes de predisposição hereditária, com laudo médico, que inclui BRCA1 e BRCA2. O resultado fica privado até você decidir abrir, para que a decisão de saber aconteça no seu tempo. O Alpha custa R$ 2.983. Ele faz parte da visão da Piantare como infraestrutura de saúde e longevidade: o laudo pode ficar guardado no Open Health, junto com os seus exames, sob o seu controle. Antes e depois do teste, o caminho recomendado é o aconselhamento genético com um profissional habilitado.
Perguntas frequentes
Câncer de ovário é sempre hereditário?
Não. A maior parte dos casos não tem origem herdada. Ainda assim, entre 18% e 24% das mulheres com câncer de ovário carregam uma variante herdada, uma proporção alta quando comparada a outros cânceres.
Existe exame de rotina que detecta câncer de ovário cedo?
Para a população geral, não. O grande ensaio UKCTOCS mostrou que o rastreamento com exame de sangue e ultrassom não melhorou o desfecho final. Por isso, conhecer a predisposição genética ganha importância.
Tenho BRCA2. Minha chance de câncer de ovário é igual à de quem tem BRCA1?
Não. As estimativas até os 80 anos são de cerca de 44% para BRCA1 e 17% para BRCA2. A idade em que as decisões preventivas são discutidas também costuma ser diferente.
Homens precisam se preocupar com câncer de ovário hereditário?
Homens não têm ovários, mas podem herdar e transmitir as mesmas variantes. Além disso, genes como BRCA2 também aumentam a predisposição a câncer de próstata, de pâncreas e de mama masculina.
Minha mãe teve câncer de ovário aos 70 anos. Ainda vale investigar?
Sim. Nos estudos, mais de 35% das portadoras tinham 60 anos ou mais no diagnóstico. Idade avançada não exclui a origem hereditária, e o aconselhamento genético ajuda a decidir quem testar primeiro.
Fontes
- Walsh T, Casadei S, Lee MK et al. Mutations in 12 genes for inherited ovarian, fallopian tube, and peritoneal carcinoma identified by massively parallel sequencing. PNAS, 2011;108(44):18032-18037. doi.org/10.1073/pnas.1115052108 · Evidência B
- Norquist BM, Harrell MI, Brady MF et al. Inherited mutations in women with ovarian carcinoma. JAMA Oncology, 2016;2(4):482-490. doi.org/10.1001/jamaoncol.2015.5495 · Evidência B
- Kuchenbaecker KB, Hopper JL, Barnes DR et al. Risks of breast, ovarian, and contralateral breast cancer for BRCA1 and BRCA2 mutation carriers. JAMA, 2017;317(23):2402-2416. doi.org/10.1001/jama.2017.7112 · Evidência B
- Yang X, Song H, Leslie G et al. Ovarian and breast cancer risks associated with pathogenic variants in RAD51C and RAD51D. Journal of the National Cancer Institute, 2020;112(12):1242-1250. doi.org/10.1093/jnci/djaa030 · Evidência B
- Yang X, Leslie G, Doroszuk A et al. Cancer risks associated with germline PALB2 pathogenic variants: an international study of 524 families. Journal of Clinical Oncology, 2020;38(7):674-685. doi.org/10.1200/JCO.19.01907 · Evidência B
- Menon U, Gentry-Maharaj A, Burnell M et al. Ovarian cancer population screening and mortality after long-term follow-up in the UK Collaborative Trial of Ovarian Cancer Screening (UKCTOCS): a randomised controlled trial. Lancet, 2021;397(10290):2182-2193. doi.org/10.1016/S0140-6736(21)00731-5 · Evidência A
- Martins LFL, Chaves GV, Oliveira JFP et al. Perfil epidemiológico da incidência de câncer no Brasil e regiões: estimativas para o triênio 2026-2028. Revista Brasileira de Cancerologia (INCA), 2026;72(2):e-025587. rbc.inca.gov.br/index.php/revista/article/view/5587 · Evidência B
- Cheng HH, Giri VN, Goggins M et al. NCCN Guidelines Insights: Genetic/Familial High-Risk Assessment: Breast, Ovarian, Pancreatic, and Prostate, Version 2.2026. Journal of the National Comprehensive Cancer Network, 2026;24(2):2-10. doi.org/10.6004/jnccn.2026.0007 · Evidência A