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Guia · Genética clínica

Síndrome de Lynch: o que é, sinais e como se detecta

Os critérios clínicos, o teste genético e o acompanhamento.

Publicado19 out 2026
Leitura8 min
Síndrome de Lynch: o que é, sinais e como se detecta
Resposta direta

A síndrome de Lynch é uma condição hereditária causada por variantes nos genes de reparo do DNA MLH1, MSH2, MSH6, PMS2 ou EPCAM. Cerca de 1 em cada 279 pessoas carrega uma dessas variantes. Ela aumenta o risco de câncer de intestino, útero e outros, e é identificada por critérios clínicos, exame do tumor e teste genético.

Neste texto

  1. O que é a síndrome de Lynch
  2. Quais cânceres estão ligados à síndrome de Lynch
  3. Sintomas: o que observar
  4. Critérios clínicos: Amsterdam II e Bethesda
  5. Como se detecta: exame do tumor e teste genético
  6. Acompanhamento: o que muda na vida de quem tem Lynch

O que é a síndrome de Lynch

Nosso DNA tem um sistema de revisão. A cada divisão celular, um conjunto de proteínas corrige pequenos erros de cópia. Esse sistema se chama reparo de erros de pareamento (em inglês, mismatch repair, ou MMR). Na síndrome de Lynch, a pessoa nasce com uma variante que desliga uma das cópias de um desses genes: MLH1, MSH2, MSH6, PMS2 ou, mais raramente, EPCAM EV A.

A herança é autossômica dominante. Na prática, cada filho de uma pessoa com Lynch tem 50% de chance de herdar a variante, seja menino ou menina EV A. Um estudo com famílias de 5.744 pessoas com câncer colorretal nos Estados Unidos, no Canadá e na Austrália estimou que 1 em cada 279 pessoas carrega uma variante nos genes MMR EV B.

1 em 279pessoas carrega uma variante em genes de reparo do DNA ligados à síndrome de Lynch, segundo estimativa populacional.
Win et al., Cancer Epidemiol Biomarkers Prev, 2017

O nome antigo era câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC). O INCA considera “síndrome de Lynch” mais adequado, porque a condição vai além do intestino EV A. Para o panorama completo das síndromes hereditárias, veja nosso guia sobre câncer hereditário.

Quais cânceres estão ligados à síndrome de Lynch

O maior banco prospectivo do tema, o Prospective Lynch Syndrome Database, acompanhou 6.350 portadores por 51.646 anos-pessoa EV B. Os principais achados:

O mesmo estudo traz uma notícia que importa: a sobrevida bruta em dez anos passou de 80% após câncer de cólon, endométrio ou ovário nesses portadores EV B. Quem sabe que tem Lynch entra num acompanhamento que costuma encontrar a doença cedo.

Estimativas variam de cerca de 2% a 5% de todos os cânceres colorretais ligados à síndrome. Num estudo em Ohio com 1.066 pacientes, a proporção foi de 2,2% EV B; o manual do INCA cita cerca de 5% EV A.

Sintomas: o que observar

A síndrome de Lynch em si não causa sintomas. Ela é uma predisposição, uma tendência maior, e a maioria das pessoas só descobre por causa da história familiar ou de um exame do tumor.

Os sinais de alerta são os do câncer de intestino em geral, listados pelo INCA EV A:

Esses sinais têm muitas causas benignas. Se persistirem, procure seu médico. O sinal mais útil para Lynch está na árvore da família, e montar um histórico de saúde familiar é o primeiro passo.

Critérios clínicos: Amsterdam II e Bethesda

Antes dos testes genéticos ficarem acessíveis, médicos usavam regras baseadas na família para suspeitar de Lynch.

Critérios de Amsterdam II (1999), a regra “3-2-1” EV A:

Diretrizes de Bethesda revisadas (2004) são mais amplas e servem para indicar quem deve ter o tumor examinado EV A. Entre elas: câncer colorretal antes dos 50 anos, mais de um câncer ligado a Lynch na mesma pessoa, ou parentes de primeiro grau com esses cânceres.

Os critérios ajudam, mas deixam pessoas de fora. No estudo de Ohio, 5 dos 23 pacientes com Lynch não preenchiam nem Amsterdam nem Bethesda EV B. Por isso os autores defenderam examinar o tumor de todo câncer colorretal, uma triagem universal que encontra famílias que os critérios deixariam passar.

Como se detecta: exame do tumor e teste genético

A investigação costuma ter duas camadas.

1. Exame do tumor. Quando alguém tem câncer colorretal ou de endométrio, o patologista pode avaliar se as proteínas MMR estão presentes (imuno-histoquímica) ou se o DNA do tumor mostra instabilidade de microssatélites, uma “bagunça” típica de quando o reparo falha. O estudo de Ohio mostrou que a imuno-histoquímica tem desempenho parecido com estratégias mais complexas EV B.

2. Teste genético germinativo. É o teste no DNA herdado, feito em sangue ou saliva. Ele procura variantes nos genes MLH1, MSH2, MSH6, PMS2 e EPCAM, geralmente dentro de um painel genético para câncer hereditário. O resultado vem classificado em cinco categorias padronizadas: patogênica, provavelmente patogênica, de significado incerto, provavelmente benigna e benigna EV A. Uma variante de significado incerto não deve mudar condutas sozinha, e é aí que o aconselhamento genético faz diferença.

Quando uma variante é confirmada, os parentes podem testar só aquela alteração. Em Ohio, 117 familiares fizeram o teste: 52 tinham a variante e 65 puderam seguir o rastreio da população geral EV B.

Acompanhamento: o que muda na vida de quem tem Lynch

Saber cedo transforma risco em plano. Os pontos centrais das diretrizes do NCCN, rede de centros de câncer dos Estados Unidos, resumidas em revisão de 2022 EV A:

A colonoscopia funciona porque retira pólipos antes que virem câncer. Num estudo finlandês de 15 anos, famílias com Lynch que fizeram colonoscopia a cada três anos tiveram 62% menos câncer colorretal, e nenhuma morte por ele no grupo acompanhado EV B.

Câncer colorretal em famílias com Lynch em 15 anos

Sem colonoscopia16%Colonoscopia a cada 3 anos6%PESSOAS QUE TIVERAM CÂNCER COLORRETAL (%)
Järvinen et al., Gastroenterology, 2000

Um ensaio clínico randomizado com 861 portadores mostrou menos câncer colorretal com aspirina diária EV B. A decisão envolve riscos e precisa ser individual: nunca comece ou mude uma medicação sem falar com seu médico.

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Perguntas frequentes

Tem cura?

A variante genética acompanha a pessoa a vida toda, então não há cura para a síndrome em si. O que existe é um acompanhamento eficaz: colonoscopias regulares encontram e retiram pólipos antes que virem câncer, e a sobrevida após os cânceres mais comuns supera 80% em dez anos.

Como se detecta?

Por três caminhos que se completam: história familiar (critérios de Amsterdam II e Bethesda), exame do tumor por imuno-histoquímica ou instabilidade de microssatélites e teste genético germinativo em sangue ou saliva, que confirma a variante nos genes MLH1, MSH2, MSH6, PMS2 ou EPCAM.

Quem deve testar?

Pessoas com câncer colorretal ou de endométrio, sobretudo antes dos 50 anos, famílias que preenchem os critérios clínicos e parentes de alguém com variante confirmada. A decisão é melhor quando tomada com orientação de um profissional de genética.

Quais cânceres estão ligados?

Principalmente intestino (colorretal) e endométrio. Também ovário, estômago, intestino delgado, vias urinárias, pâncreas, cérebro e próstata, com riscos que variam conforme o gene envolvido.

Fontes

  1. Win AK et al. Prevalence and penetrance of major genes and polygenes for colorectal cancer. Cancer Epidemiol Biomarkers Prev, 2017. doi.org/10.1158/1055-9965.EPI-16-0693 · Evidência B
  2. Dominguez-Valentin M et al. Cancer risks by gene, age, and gender in 6350 carriers of pathogenic mismatch repair variants: findings from the Prospective Lynch Syndrome Database. Genet Med, 2020. doi.org/10.1038/s41436-019-0596-9 · Evidência B
  3. Vasen HF et al. New clinical criteria for hereditary nonpolyposis colorectal cancer (HNPCC, Lynch syndrome) proposed by the International Collaborative Group on HNPCC. Gastroenterology, 1999. doi.org/10.1016/s0016-5085(99)70510-x · Evidência A
  4. Umar A et al. Revised Bethesda Guidelines for hereditary nonpolyposis colorectal cancer (Lynch syndrome) and microsatellite instability. J Natl Cancer Inst, 2004. doi.org/10.1093/jnci/djh034 · Evidência A
  5. Hampel H et al. Screening for the Lynch syndrome (hereditary nonpolyposis colorectal cancer). N Engl J Med, 2005. doi.org/10.1056/NEJMoa043146 · Evidência B
  6. Järvinen HJ et al. Controlled 15-year trial on screening for colorectal cancer in families with hereditary nonpolyposis colorectal cancer. Gastroenterology, 2000. doi.org/10.1016/s0016-5085(00)70168-5 · Evidência B
  7. Burn J et al. Cancer prevention with aspirin in hereditary colorectal cancer (Lynch syndrome), 10-year follow-up and registry-based 20-year data in the CAPP2 study. Lancet, 2020. doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30366-4 · Evidência B
  8. Curtius K, Gupta S, Boland CR. Review article: Lynch syndrome, a mechanistic and clinical management update (com resumo das diretrizes NCCN). Aliment Pharmacol Ther, 2022. doi.org/10.1111/apt.16826 · Evidência A
  9. Richards S et al. Standards and guidelines for the interpretation of sequence variants (ACMG/AMP). Genet Med, 2015. doi.org/10.1038/gim.2015.30 · Evidência A
  10. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Rede Nacional de Câncer Familial: manual operacional. Ministério da Saúde, 2009. www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/docume
  11. Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de intestino: vamos falar sobre isso? Folder, 2023. antigo.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/docu

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