Genética · Laudos
Variante de significado incerto (VUS): o que significa no laudo e o que fazer agora
Por que o laudo traz uma resposta em aberto, quantas dessas variantes viram benignas e como seguir com tranquilidade.

Variante de significado incerto, ou VUS, é uma alteração no DNA sobre a qual ainda não há dados para dizer se aumenta a predisposição a uma doença. Num laboratório com 1,45 milhão de pessoas testadas, 7,7% das VUS únicas foram reclassificadas, e 91,2% delas viraram benignas ou provavelmente benignas (Mersch, JAMA 2018). Por isso, a VUS não deve guiar decisões clínicas.
Neste texto
- O que é uma variante de significado incerto
- Por que uma VUS aparece no seu laudo
- Quão comum é receber uma VUS
- Reclassificação: a maioria vira benigna
- Por que a VUS não deve mudar a conduta
- Como seguir com uma VUS
- Perguntas para levar à consulta
- Como a Piantare apoia essa decisão
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é uma variante de significado incerto
Todo mundo tem milhões de pequenas diferenças no DNA. A maioria não tem efeito nenhum na saúde. Quando um teste genético lê um gene de predisposição ao câncer, cada diferença encontrada precisa ser classificada.
Desde 2015, os laboratórios seguem o padrão do Colégio Americano de Genética Médica e da Associação de Patologia Molecular, que usa cinco categorias EV A:
| Classificação | O que quer dizer |
|---|---|
| Patogênica | Há evidência forte de que a variante aumenta a predisposição |
| Provavelmente patogênica | A evidência é boa, mas ainda não definitiva; na prática, costuma ser conduzida como patogênica |
| Significado incerto (VUS) | Não há dados suficientes para dizer se tem efeito |
| Provavelmente benigna | A evidência indica que provavelmente não tem efeito |
| Benigna | Há evidência forte de que não tem efeito |
A VUS fica no meio. Ela não é um resultado positivo nem negativo. É um registro honesto de que a ciência ainda não sabe o suficiente sobre aquela variante específica.
Por que uma VUS aparece no seu laudo
Para classificar uma variante, os especialistas combinam vários tipos de evidência: com que frequência ela aparece em pessoas saudáveis, se acompanha a doença dentro das famílias, o que testes de laboratório mostram sobre a proteína e o que os programas de computador preveem. Quando essas peças são poucas ou contraditórias, a resposta fica em aberto.
Três fatores tornam a VUS mais provável:
- Variantes raras. Se poucas pessoas no mundo têm aquela variante, há poucos dados para comparar.
- Painéis maiores. Quanto mais genes são lidos, maior a chance de encontrar alguma variante sem classificação definida.
- Ancestralidades menos estudadas. Os bancos de dados genéticos ainda têm muito mais pessoas de origem europeia.
O Brasil sente esse último ponto. Um levantamento nacional com 649 famílias portadoras encontrou 126 variantes diferentes em BRCA1 e 103 em BRCA2, várias delas descritas pela primeira vez EV C. Quanto mais diversa a população, mais variantes novas aparecem, e mais dados brasileiros são necessários para classificá-las.
Também ajuda saber que a VUS não é um erro de laboratório nem um resultado de baixa qualidade. A leitura do DNA foi feita corretamente. O que falta é conhecimento sobre o efeito daquela alteração específica, e esse conhecimento cresce a cada ano, à medida que mais pessoas fazem testes e mais famílias são estudadas.
Laboratórios diferentes podem, às vezes, classificar a mesma variante de formas distintas, porque usam bancos de dados internos diferentes. Esse é mais um motivo para que a interpretação seja feita por um profissional que conheça o seu caso.
Quão comum é receber uma VUS
É bem comum. Em um centro dos Estados Unidos, 1.483 pacientes fizeram painéis multigênicos para câncer hereditário EV C. A taxa de variante patogênica foi parecida entre os grupos, em torno de 15%. Já a taxa de VUS foi de 27% em pessoas brancas e de 36% em pessoas não brancas.
A diferença cresceu com o tamanho do painel. Testando só BRCA1 e BRCA2, a distância entre os grupos foi de 1,1 ponto percentual. Com 13 genes, foi de 8 pontos. Com 28 genes, de 14 pontos.
Ou seja, se o seu laudo trouxe uma VUS, você está longe de ser exceção. Isso não quer dizer que algo deu errado no teste.
Reclassificação: a maioria vira benigna
A classificação de uma variante não é definitiva. Conforme mais pessoas são testadas e mais estudos são publicados, os laboratórios revisam suas interpretações e emitem laudos atualizados.
O maior estudo sobre o tema analisou dados de 1,45 milhão de pessoas testadas em um laboratório entre 2006 e 2018 EV B. Os resultados:
- 7,7% das VUS únicas foram reclassificadas no período;
- dessas, 91,2% foram rebaixadas para benignas ou provavelmente benignas, com tempo mediano de 1,17 ano até o laudo atualizado;
- 8,7% foram promovidas para patogênicas ou provavelmente patogênicas, com tempo mediano de 1,86 ano;
- como muitas variantes aparecem em mais de uma pessoa, 24,9% de todas as VUS entregues foram reclassificadas.
Em comparação, variantes classificadas como patogênicas ou como benignas quase nunca mudaram de categoria clínica: 0,7% e 0,2%, respectivamente. É uma boa notícia para quem tem um resultado definido e um motivo de tranquilidade para quem tem uma VUS.
Por que a VUS não deve mudar a conduta
A diretriz do Colégio Americano de Genética Médica é direta: uma VUS não deve ser usada para tomar decisões clínicas EV A. As diretrizes do NCCN seguem a mesma linha: o cuidado é guiado pelo histórico pessoal e familiar, como se a VUS não estivesse no laudo EV A.
Na prática, essa regra nem sempre é seguida. Um estudo com 3.672 mulheres com câncer de mama nos Estados Unidos mostrou que metade das que tinham risco médio e receberam uma VUS passou por mastectomia bilateral, um achado que, para os autores, sugere uma compreensão limitada do que a VUS significa EV B. Entre os cirurgiões, 50% dos que atendiam menos casos de câncer de mama disseram tratar uma VUS em BRCA1 ou BRCA2 da mesma forma que uma variante patogênica. Cerca de metade das pacientes não conversou com um profissional de aconselhamento genético.
Esse é o ponto mais importante deste guia. O aconselhamento genético existe exatamente para evitar decisões tomadas com base em uma informação que ainda não está pronta.
Como seguir com uma VUS
Receber um resultado em aberto pode gerar ansiedade. Algumas atitudes ajudam a transformar a dúvida em plano:
- Siga o cuidado indicado pela sua história. Se o histórico familiar pede acompanhamento ampliado, ele continua valendo. Se não pede, o rastreamento habitual continua adequado.
- Guarde o laudo e mantenha o contato atualizado com o laboratório. É assim que a reclassificação chega até você.
- Pergunte de tempos em tempos. Em retornos de rotina, vale perguntar ao seu médico ou ao serviço de aconselhamento se a variante foi revista.
- Não teste parentes para a VUS sem orientação. Em geral, o teste em cascata é feito para variantes patogênicas. Às vezes, o laboratório pede amostras de parentes para pesquisa, e isso é diferente.
Para entender o laudo como um todo, leia também o guia de painel genético para câncer hereditário e o de teste BRCA.
Não existe pergunta boba nesse processo. Levar dúvidas por escrito e, se quiser, uma pessoa de confiança à consulta costuma tornar a conversa mais tranquila e produtiva.
E, enquanto a resposta não chega, os hábitos de sempre seguem valendo para todo mundo.
Perguntas para levar à consulta
Uma conversa bem preparada reduz a ansiedade e evita decisões precipitadas. Estas perguntas ajudam a organizar o encontro com o médico ou com o serviço de aconselhamento genético:
- Em qual gene está a VUS e qual é o nome exato da variante?
- O meu cuidado muda por causa dela, ou continua guiado pelo meu histórico e pelo da minha família?
- Há sinais, mesmo fracos, de que ela tende para benigna ou para patogênica?
- Como o laboratório vai me avisar se houver reclassificação, e com que frequência ele revisa os laudos?
- Faz sentido que algum parente participe de estudos para ajudar a classificar a variante?
- Se o meu histórico familiar mudar, por exemplo com um novo diagnóstico na família, o que devo fazer?
Anote as respostas e guarde junto com o laudo. Se uma nova informação aparecer daqui a alguns anos, você terá o contexto completo para retomar a conversa. Também vale lembrar que a ciência avança por causa de pessoas que fizeram o teste: cada laudo, inclusive os incertos, ajuda a construir os dados que vão esclarecer as próximas variantes.
Como a Piantare apoia essa decisão
O Piantare Alpha é a camada clínica do nosso laboratório: sequenciamento de 100 genes de predisposição hereditária, com laudo médico, que inclui BRCA1 e BRCA2. O resultado fica privado até você decidir abrir, para que a decisão de saber aconteça no seu tempo. Guardar o laudo num lugar seguro facilita receber e consultar uma eventual reclassificação. O Alpha custa R$ 2.983. Ele faz parte da visão da Piantare como infraestrutura de saúde e longevidade: o laudo pode ficar guardado no Open Health, junto com os seus exames, sob o seu controle. Antes e depois do teste, o caminho recomendado é o aconselhamento genético com um profissional habilitado.
Perguntas frequentes
VUS quer dizer que tenho predisposição ao câncer?
Não. VUS significa que ainda não se sabe se a variante tem efeito. Nos dados de reclassificação, a grande maioria das VUS revistas, 91,2%, virou benigna ou provavelmente benigna.
Devo fazer cirurgia preventiva por causa de uma VUS?
As diretrizes orientam que a VUS não seja usada para decisões clínicas. O cuidado deve seguir o seu histórico pessoal e familiar, sempre definido com a equipe médica.
Quanto tempo leva para uma VUS ser reclassificada?
Varia muito. No maior estudo sobre o tema, o tempo mediano até o laudo atualizado foi de cerca de 1,2 ano para as rebaixadas e de 1,9 ano para as promovidas. Muitas VUS seguem sem reclassificação por anos.
Por que brasileiros recebem mais VUS?
Os bancos de dados genéticos têm mais pessoas de origem europeia, e a população brasileira é muito diversa. Em um estudo americano, a taxa de VUS foi de 36% em pessoas não brancas e de 27% em pessoas brancas.
Minha família deve fazer o teste para a minha VUS?
Em geral, não para orientar o cuidado. O teste em cascata é indicado para variantes patogênicas. O laboratório pode pedir amostras de parentes para ajudar a classificar a variante, o que é uma participação em pesquisa.
Fontes
- Richards S, Aziz N, Bale S et al. Standards and guidelines for the interpretation of sequence variants: a joint consensus recommendation of the ACMG and the AMP. Genetics in Medicine, 2015;17(5):405-424. doi.org/10.1038/gim.2015.30 · Evidência A
- Mersch J, Brown N, Pirzadeh-Miller S et al. Prevalence of variant reclassification following hereditary cancer genetic testing. JAMA, 2018;320(12):1266-1274. doi.org/10.1001/jama.2018.13152 · Evidência B
- Caswell-Jin JL, Gupta T, Hall E et al. Racial/ethnic differences in multiple-gene sequencing results for hereditary cancer risk. Genetics in Medicine, 2018;20(2):234-239. doi.org/10.1038/gim.2017.96 · Evidência C
- Kurian AW, Li Y, Hamilton AS et al. Gaps in incorporating germline genetic testing into treatment decision-making for early-stage breast cancer. Journal of Clinical Oncology, 2017;35(20):2232-2239. doi.org/10.1200/JCO.2016.71.6480 · Evidência B
- Palmero EI, Carraro DM, Alemar B et al. The germline mutational landscape of BRCA1 and BRCA2 in Brazil. Scientific Reports, 2018;8(1):9188. doi.org/10.1038/s41598-018-27315-2 · Evidência C
- Cheng HH, Giri VN, Goggins M et al. NCCN Guidelines Insights: Genetic/Familial High-Risk Assessment: Breast, Ovarian, Pancreatic, and Prostate, Version 2.2026. Journal of the National Comprehensive Cancer Network, 2026;24(2):2-10. doi.org/10.6004/jnccn.2026.0007 · Evidência A