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Escetamina em spray: como funciona o tratamento da depressão resistente
O que é a escetamina intranasal, para quem foi aprovada no Brasil, o que os ensaios mostram e por que ela só é aplicada em serviço de saúde.

A escetamina em spray nasal, conhecida pela marca Spravato, foi aprovada pela Anvisa em novembro de 2020 para adultos com depressão resistente, junto com um antidepressivo oral e sempre aplicada em serviço de saúde. No ensaio ESCAPE-TRD, publicado no NEJM em 2023, 27,1% dos pacientes com escetamina chegaram à remissão na semana 8, contra 17,6% com quetiapina.
Neste texto
- O que é depressão resistente
- O que é a escetamina e como ela age
- Aprovação e regras no Brasil
- O que os ensaios clínicos mostram
- Como é uma sessão e quais são os efeitos comuns
- O que ainda não sabemos
- A base que acompanha qualquer tratamento
- Como seguir daqui
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é depressão resistente
Fala-se em depressão resistente quando a pessoa já tentou pelo menos dois antidepressivos, em dose e tempo adequados, no mesmo episódio, sem melhora suficiente. Não é raro. Um dos ensaios mais citados sobre o tema lembra que cerca de um terço das pessoas com depressão não chega à remissão mesmo depois de vários tratamentos.
Receber esse rótulo pode trazer desânimo, como se nada fosse funcionar. A leitura certa é outra: significa que vale olhar para opções com mecanismos diferentes, ajustar a combinação de tratamentos e revisar o diagnóstico com cuidado. A escetamina é uma dessas opções, e hoje está entre as mais estudadas.
Antes de pensar em uma nova molécula, o médico costuma revisar alguns pontos: se o diagnóstico está correto, se há outra condição associada, como transtorno bipolar, ansiedade, uso de álcool ou problema de tireoide, se o remédio foi tomado pelo tempo necessário e se a psicoterapia faz parte do plano. Às vezes, o que parecia resistência era um tratamento incompleto. Quando não é o caso, as opções se ampliam.
O que é a escetamina e como ela age
A escetamina é uma das duas formas da molécula da cetamina, um anestésico usado há décadas. Os antidepressivos mais comuns agem sobre a serotonina e a noradrenalina. A escetamina age em outro sistema, o do glutamato, bloqueando um receptor chamado NMDA. Esse mecanismo diferente ajuda a explicar dois traços que chamam atenção nos estudos: a melhora pode começar em horas ou dias, e ela pode aparecer em quem não respondeu aos antidepressivos tradicionais.
A origem da pesquisa está na cetamina endovenosa, que em 2006 mostrou efeito antidepressivo rápido num pequeno ensaio do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA. A história completa está em cetamina para depressão. A escetamina em spray foi desenvolvida para transformar essa descoberta num tratamento padronizado e regulado.
Aprovação e regras no Brasil
A Anvisa aprovou a escetamina intranasal em 3 de novembro de 2020. Os pontos centrais do registro são:
- Para quem: adultos com depressão resistente, ou seja, sem resposta a pelo menos dois antidepressivos.
- Como: sempre em combinação com um antidepressivo oral, nunca sozinha.
- Onde: a aplicação é feita somente em serviço de saúde, sob supervisão de profissional, e a pessoa fica em observação depois de cada sessão.
- Ideação suicida: a bula também menciona o uso em pacientes com ideação suicida aguda, mas sem demonstração de que o remédio previna o suicídio.
Há uma diferença importante entre o spray e outras formas da molécula. A escetamina e a cetamina endovenosas têm registro no Brasil apenas como anestésicos. O uso delas em transtornos mentais é considerado off-label pelo Conselho Federal de Medicina, segundo o Parecer CFM nº 20/2024. Pareceres e notas técnicas de conselhos regionais, como o CRM-PB em fevereiro de 2026, reforçam que as vias de administração não são intercambiáveis.
O que os ensaios clínicos mostram
Três estudos ajudam a entender o que a escetamina faz e o que ela não faz.
| Estudo | Pergunta | Resultado |
|---|---|---|
| TRANSFORM-2, Am J Psychiatry, 2019 | Escetamina com novo antidepressivo vs. placebo com novo antidepressivo, 227 pacientes | Queda maior nos sintomas no dia 28, com melhora já nos primeiros dias |
| SUSTAIN-1, JAMA Psychiatry, 2019 | Continuar ou parar a escetamina em quem já tinha melhorado, 297 pacientes | Recaída em 26,7% de quem continuou vs. 45,3% de quem passou para placebo, entre os que estavam em remissão |
| ESCAPE-TRD, NEJM, 2023 | Escetamina vs. quetiapina de liberação prolongada, ambas com antidepressivo, 676 pacientes | Remissão na semana 8 em 27,1% vs. 17,6%; sem recaída até a semana 32 em 21,7% vs. 14,1% |
O ESCAPE-TRD tem um peso especial porque comparou a escetamina com outra estratégia já usada na prática, e não só com placebo. Ele foi aberto para os pacientes, mas os avaliadores não sabiam quem estava em cada grupo.
Os números também mostram o limite. Mesmo com escetamina, a maioria das pessoas não chegou à remissão na semana 8. É um avanço real, e não uma solução para todos.
Como é uma sessão e quais são os efeitos comuns
A pessoa recebe o spray no consultório ou na clínica, aplica sob orientação da equipe e fica em observação por um período. Não pode dirigir no mesmo dia. A pressão arterial costuma ser monitorada.
No TRANSFORM-2, os efeitos mais frequentes foram dissociação, náusea, vertigem, alteração do paladar e tontura. A dissociação é uma sensação de distância do próprio corpo ou do ambiente, como se as coisas estivessem um pouco irreais. Esses efeitos apareceram logo após a aplicação e, em geral, passaram em até uma hora e meia. Interromperam o tratamento por evento adverso 7% dos pacientes com escetamina e 0,9% no grupo comparador.
É por isso que a aplicação acontece em serviço de saúde: a observação é parte do tratamento, não um detalhe burocrático. A molécula também tem potencial de uso indevido, outro motivo para o controle.
O que ainda não sabemos
- Uso por muitos anos. Os estudos de manutenção acompanharam meses, não décadas.
- Quem responde melhor. Ainda não há marcador que diga de antemão quem vai melhorar.
- Comparação com outras opções. Faltam estudos frente a todas as estratégias usadas na depressão resistente, como a eletroconvulsoterapia.
- Efeito sobre o suicídio. A redução rápida de sintomas não equivale à prevenção comprovada de suicídio.
Perguntas que você pode levar à consulta
- A minha depressão se encaixa na definição de depressão resistente?
- Quais opções ainda não foram tentadas no meu caso, com e sem remédio?
- Se a escetamina for uma opção, como seria a rotina das sessões e o acompanhamento?
- Quais sinais indicariam que o tratamento está funcionando, e em quanto tempo?
- O que acontece com o meu antidepressivo atual durante esse período?
Levar essas perguntas por escrito ajuda a transformar uma conversa difícil num plano concreto.
A base que acompanha qualquer tratamento
Depressão resistente não significa que só remédios novos podem ajudar. Há uma base com evidência que se soma ao tratamento médico, sempre com o médico e nunca no lugar dele:
- Psicoterapia junto com o remédio. Metanálises mostram que a combinação supera cada abordagem isolada.
- Movimento. Uma metanálise em rede com 218 ensaios, publicada no BMJ em 2024, encontrou reduções moderadas de sintomas com caminhada ou corrida, ioga e treino de força. Veja exercício para depressão.
- Sono. Tratar a insônia ajuda o humor. Veja insônia sem remédio.
- Constância no tratamento atual. Mudanças nos antidepressivos são sempre conduzidas pelo médico. Entenda o porquê em como parar o antidepressivo com segurança.
Como seguir daqui
Se você convive com uma depressão que não melhorou com os tratamentos já tentados, vale levar essa pergunta ao seu psiquiatra. Para organizar as ideias antes da consulta, a Piantare tem um quiz de 3 minutos sobre mente e novos tratamentos e o material sem custo Mapa da evidência 2026, com o que escetamina, cetamina, psilocibina e outras abordagens já mostraram e a situação regulatória de cada uma.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta. Não interrompa nem altere medicamentos sem orientação do seu médico.
Se você está em sofrimento ou pensando em se machucar, ligue 188 (CVV, 24 h) ou 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
Escetamina em spray é aprovada no Brasil?
Sim. A Anvisa aprovou a escetamina intranasal em novembro de 2020 para adultos com depressão resistente, em combinação com antidepressivo oral e com aplicação apenas em serviço de saúde.
Posso usar a escetamina em casa?
Não. Pelo registro no Brasil, a aplicação é feita somente em serviço de saúde, com supervisão e observação depois de cada sessão.
Quanto tempo a escetamina leva para fazer efeito?
Nos estudos, a melhora começou a aparecer nos primeiros dias de tratamento, mais rápido do que com antidepressivos tradicionais. A resposta varia de pessoa para pessoa.
Quais são os efeitos colaterais da escetamina?
Os mais comuns nos ensaios foram dissociação, náusea, vertigem, alteração do paladar e tontura, que em geral passaram em até uma hora e meia após a aplicação.
Escetamina e cetamina são a mesma coisa?
A escetamina é uma das formas da molécula da cetamina. No Brasil, o spray de escetamina tem registro para depressão resistente; as formas endovenosas têm registro só para anestesia e o uso em saúde mental é off-label.
Fontes
- Popova V et al. Efficacy and Safety of Flexibly Dosed Esketamine Nasal Spray Combined With a Newly Initiated Oral Antidepressant in Treatment-Resistant Depression (TRANSFORM-2). American Journal of Psychiatry, 2019;176:428-38. doi.org/10.1176/appi.ajp.2019.19020172 · Evidência A
- Daly EJ et al. Efficacy of Esketamine Nasal Spray Plus Oral Antidepressant Treatment for Relapse Prevention in Patients With Treatment-Resistant Depression (SUSTAIN-1). JAMA Psychiatry, 2019;76:893-903. doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2019.1189 · Evidência A
- Reif A et al. Esketamine Nasal Spray versus Quetiapine for Treatment-Resistant Depression (ESCAPE-TRD). New England Journal of Medicine, 2023;389:1298-309. doi.org/10.1056/NEJMoa2304145 · Evidência A
- Zarate CA et al. A randomized trial of an N-methyl-D-aspartate antagonist in treatment-resistant major depression. Archives of General Psychiatry, 2006;63:856-64. doi.org/10.1001/archpsyc.63.8.856 · Evidência C
- Conselho Regional de Medicina da Paraíba. Nota técnica sobre cloridrato de escetamina em psiquiatria, 24/02/2026. crmpb.org.br/wp-content/uploads/2026/02/NOTA-TECNICA-PSIQUIATRIACLORIDRATO-DE-ESCETAMINA.pdf · Evidência D
- Noetel M et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 2024;384:e075847. doi.org/10.1136/bmj-2023-075847 · Evidência A
- Cuijpers P et al. A network meta-analysis of the effects of psychotherapies, pharmacotherapies and their combination in the treatment of adult depression. World Psychiatry, 2020;19:92-107. doi.org/10.1002/wps.20701 · Evidência A