Guia · Mente · Novos tratamentos
Cetamina para depressão: da anestesia à psiquiatria
Como um anestésico antigo virou um dos temas mais estudados da psiquiatria, o que os ensaios mostram e por que o uso no Brasil é off-label.

A cetamina endovenosa tem efeito antidepressivo rápido em depressão resistente. No ensaio ELEKT-D, publicado no NEJM em 2023 com 403 pacientes, 55,4% responderam à cetamina e 41,2% à eletroconvulsoterapia. O efeito, porém, tende a ser passageiro sem continuidade. No Brasil, a cetamina tem registro só como anestésico, e o uso em saúde mental é off-label, segundo o Conselho Federal de Medicina.
Neste texto
- Um anestésico que surpreendeu a psiquiatria
- O que os estudos mostraram
- Para quem os estudos foram feitos
- O que é off-label e por que isso importa no Brasil
- Efeitos comuns durante e depois das sessões
- O que ainda não sabemos
- A base que se soma ao tratamento
- Como seguir daqui
- Perguntas frequentes
- Fontes
Um anestésico que surpreendeu a psiquiatria
A cetamina é usada como anestésico há décadas, em hospitais e em medicina de emergência. No começo dos anos 2000, pesquisadores notaram que, em doses abaixo das usadas na anestesia, ela parecia aliviar sintomas de depressão de forma muito rápida. Isso chamou atenção por um motivo simples: os antidepressivos tradicionais levam semanas para agir.
A diferença está no mecanismo. A maioria dos antidepressivos age sobre a serotonina e a noradrenalina. A cetamina age sobre o glutamato, o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, bloqueando um receptor chamado NMDA. A hipótese mais estudada é que isso dispare uma cascata que favorece a formação de novas conexões entre neurônios em regiões ligadas ao humor. O mecanismo exato ainda é debatido.
Essa descoberta abriu uma linha de pesquisa inteira, que levou à escetamina em spray, aprovada no Brasil desde 2020 e explicada em escetamina em spray.
O que os estudos mostraram
Três trabalhos ajudam a contar essa história.
| Estudo | Desenho | Achado principal |
|---|---|---|
| Zarate et al., Arch Gen Psychiatry, 2006 | 18 adultos com depressão resistente, cetamina vs. placebo em sequência cruzada | Melhora em menos de duas horas; 71% responderam no dia seguinte, mas só 35% mantinham a resposta após uma semana |
| Wilkinson et al., Am J Psychiatry, 2018 | Metanálise com dados individuais de 167 pacientes com ideação suicida | Redução rápida dos pensamentos suicidas em até 1 dia, mantida por até 1 semana |
| Anand et al., NEJM, 2023 (ELEKT-D) | 403 pacientes encaminhados para eletroconvulsoterapia, sorteados para cetamina ou ECT | Cetamina não inferior à ECT: resposta em 55,4% vs. 41,2% |
O estudo de 2006 foi pequeno, mas abriu o caminho: mostrou que um antidepressivo podia agir em horas. Ele também mostrou o outro lado da moeda. O efeito de uma única aplicação diminui em dias.
A metanálise de 2018 trouxe um dado sensível. Em pessoas com ideação suicida, a cetamina reduziu esses pensamentos em até 24 horas, em parte de forma independente da melhora do humor. Os próprios autores, porém, lembram que faltam dados sobre segurança a longo prazo e sobre a redução real de tentativas de suicídio.
O ELEKT-D foi o primeiro grande estudo a comparar a cetamina com a eletroconvulsoterapia em depressão resistente sem psicose. A ECT foi associada a uma queda na memória nas primeiras semanas, com recuperação gradual depois. A cetamina foi associada a dissociação durante as sessões. A melhora da qualidade de vida relatada pelos pacientes foi parecida nos dois grupos.
Para quem os estudos foram feitos
Vale olhar com atenção para quem participou desses ensaios. Em geral, eram adultos com depressão maior que já tinham tentado outros tratamentos sem melhora suficiente. Pessoas com psicose, com uso ativo de álcool ou outras drogas em padrão de dependência e com algumas condições cardíacas costumam ser excluídas. O ELEKT-D, por exemplo, incluiu apenas pessoas sem sintomas psicóticos e encaminhadas para eletroconvulsoterapia, ou seja, com quadros mais graves.
Isso significa que os resultados não valem automaticamente para uma depressão leve, para um primeiro episódio ou para quem nunca tentou um antidepressivo. Nesses casos, as diretrizes continuam apontando psicoterapia, antidepressivos e hábitos de base como o caminho inicial. A cetamina entra na conversa num ponto específico do percurso, e quem avalia esse momento é o psiquiatra.
O que é off-label e por que isso importa no Brasil
No Brasil, a cetamina e a escetamina endovenosas têm registro na Anvisa apenas como anestésicos. Usar essas formas para tratar depressão é o que se chama de uso off-label: o médico prescreve para uma indicação que não está na bula.
O uso off-label não é ilegal, e acontece em várias áreas da medicina. Mas ele traz responsabilidades. O Parecer CFM nº 20/2024 enquadra o uso endovenoso em transtornos mentais como off-label. Conselhos regionais reforçam pontos práticos: o Parecer CFM/PR 2942/2025 afirma que a escetamina intranasal não está autorizada por outras vias, e uma nota técnica do CRM-PB, de fevereiro de 2026, diz que as vias de administração não são intercambiáveis.
Se a cetamina for discutida no seu tratamento, é razoável esperar:
- Avaliação psiquiátrica completa antes de começar.
- Explicação clara de que se trata de uso off-label, com termo de consentimento.
- Aplicação em ambiente com estrutura de monitoramento e equipe treinada.
- Plano de acompanhamento entre as sessões e depois delas.
A Piantare não indica clínicas nem profissionais. A conversa sobre essa opção acontece com o seu psiquiatra.
Efeitos comuns durante e depois das sessões
O efeito mais característico é a dissociação: uma sensação de estar distante do próprio corpo ou do ambiente, com percepção alterada do tempo e dos sons. Ela costuma começar durante a aplicação e passar em poucas horas. Náusea, tontura e visão turva também aparecem. Pressão arterial e frequência cardíaca podem subir de forma transitória, por isso são acompanhadas.
A cetamina também tem potencial de uso indevido, e circula fora de contexto médico como droga recreativa. Esse é um dos motivos pelos quais o tratamento é feito sob supervisão e não pode ser levado para casa.
O que ainda não sabemos
- Duração do efeito. Depois de uma aplicação, a melhora costuma durar dias. Não está claro qual é o melhor esquema de manutenção nem por quanto tempo mantê-lo.
- Uso repetido por anos. A maioria dos estudos acompanhou semanas ou poucos meses.
- Cegamento. Como o efeito dissociativo é perceptível, é difícil esconder do participante o que ele recebeu, o que pode inflar resultados.
- Prevenção de suicídio. A queda rápida da ideação suicida é um dado importante, mas não equivale a prova de que o tratamento reduz tentativas ao longo do tempo.
- Quem se beneficia mais. Ainda não existe um marcador confiável para prever a resposta. Uma revisão sistemática de pesquisadores da USP, de 2022, analisou marcadores inflamatórios e neurotróficos em estudos com cetamina e ayahuasca, e os resultados foram contraditórios e inconclusivos.
A base que se soma ao tratamento
A cetamina chama atenção pela velocidade. Mas a melhora que dura costuma ser construída por várias camadas ao mesmo tempo, sempre com o seu médico:
- Psicoterapia. Uma metanálise em rede publicada na World Psychiatry em 2020, com 101 estudos e 11.910 pacientes, mostrou que a combinação de psicoterapia e remédio superou cada um isolado, inclusive em depressão crônica e resistente.
- Movimento. Caminhada ou corrida, ioga e treino de força reduziram sintomas de depressão em uma metanálise com 218 ensaios publicada no BMJ em 2024. Veja exercício para depressão.
- Sono. Tratar a insônia sem remédio, com TCC-I, é a primeira linha das diretrizes. Veja insônia sem remédio.
- Respeito ao tratamento atual. Antidepressivos não devem ser interrompidos por conta própria. Entenda o porquê em como parar o antidepressivo com segurança.
Esses hábitos têm efeito medido. Em algumas pessoas, ao longo do tempo, ajudam o médico a reavaliar o tratamento. Essa decisão é sempre clínica e individual.
Como seguir daqui
Se você já passou por vários tratamentos sem a melhora esperada, a cetamina pode ser uma pergunta legítima para o seu psiquiatra. Para chegar à consulta com mais clareza, faça o quiz de 3 minutos sobre mente e novos tratamentos e baixe o material sem custo Mapa da evidência 2026, que reúne por indicação o que cetamina, escetamina, psilocibina e outras abordagens já mostraram e a situação regulatória de cada uma.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta. Não interrompa nem altere medicamentos sem orientação do seu médico.
Se você está em sofrimento ou pensando em se machucar, ligue 188 (CVV, 24 h) ou 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
Cetamina é aprovada para depressão no Brasil?
A cetamina endovenosa tem registro só como anestésico. O uso em depressão é off-label, segundo o Parecer CFM nº 20/2024. O que tem registro para depressão resistente é a escetamina em spray, aprovada em 2020.
Quanto tempo dura o efeito da cetamina?
Depois de uma aplicação, a melhora costuma aparecer em horas e diminuir em dias. No estudo de 2006, 71% responderam no dia seguinte e 35% mantinham a resposta após uma semana.
Cetamina é melhor que eletroconvulsoterapia?
No ELEKT-D, em depressão resistente sem psicose, a cetamina não foi inferior à ECT, com resposta de 55,4% vs. 41,2%. Cada uma tem efeitos diferentes, e a escolha é feita com o psiquiatra.
Cetamina ajuda em pensamentos suicidas?
Uma metanálise de 2018 mostrou redução rápida da ideação suicida em até 1 dia, por até 1 semana. Ainda não há prova de que reduza tentativas ao longo do tempo. Em crise, ligue 188 ou 192.
Cetamina vicia?
A cetamina tem potencial de uso indevido e circula fora do contexto médico. Por isso, no tratamento, a aplicação é feita sob supervisão e o acompanhamento é parte essencial.
Fontes
- Zarate CA et al. A randomized trial of an N-methyl-D-aspartate antagonist in treatment-resistant major depression. Archives of General Psychiatry, 2006;63:856-64. doi.org/10.1001/archpsyc.63.8.856 · Evidência C
- Wilkinson ST et al. The Effect of a Single Dose of Intravenous Ketamine on Suicidal Ideation: A Systematic Review and Individual Participant Data Meta-Analysis. American Journal of Psychiatry, 2018;175:150-8. doi.org/10.1176/appi.ajp.2017.17040472 · Evidência A
- Anand A et al. Ketamine versus ECT for Nonpsychotic Treatment-Resistant Major Depression (ELEKT-D). New England Journal of Medicine, 2023;388:2315-25. doi.org/10.1056/NEJMoa2302399 · Evidência A
- Rossi GN et al. The effects of ketamine and classic hallucinogens on neurotrophic and inflammatory markers in unipolar treatment-resistant depression: a systematic review of clinical trials. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, 2023;273:129-55. doi.org/10.1007/s00406-022-01460-2 · Evidência B
- Cuijpers P et al. A network meta-analysis of the effects of psychotherapies, pharmacotherapies and their combination in the treatment of adult depression. World Psychiatry, 2020;19:92-107. doi.org/10.1002/wps.20701 · Evidência A
- Noetel M et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 2024;384:e075847. doi.org/10.1136/bmj-2023-075847 · Evidência A
- Conselho Regional de Medicina da Paraíba. Nota técnica sobre cloridrato de escetamina em psiquiatria, 24/02/2026. crmpb.org.br/wp-content/uploads/2026/02/NOTA-TECNICA-PSIQUIATRIACLORIDRATO-DE-ESCETAMINA.pdf · Evidência D