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Inovação · Edição genética

CRISPR: a primeira terapia de edição genética aprovada

Da descoberta em bactérias ao tratamento da doença falciforme: o que foi provado, quanto custa e o que vem a seguir.

Publicado24 set 2026
Leitura9 min
CRISPR: a primeira terapia de edição genética aprovada
Resposta direta

A primeira terapia baseada em CRISPR aprovada no mundo é o Casgevy (exagamglogene autotemcel), autorizado pela agência britânica MHRA em novembro de 2023 e pela FDA em dezembro de 2023 para doença falciforme e beta-talassemia dependente de transfusão. No ensaio de fase 3 em doença falciforme, 29 de 30 pacientes avaliados (97%) ficaram ao menos 12 meses sem crises vaso-oclusivas graves.

Neste texto

  1. O que é CRISPR, em poucas linhas
  2. A doença que abriu o caminho
  3. Os resultados que levaram à aprovação
  4. As aprovações de 2023, o custo e o acesso
  5. Como o tratamento funciona na prática
  6. As próximas fronteiras
  7. O que ainda não sabemos
  8. Como acompanhar
  9. Perguntas frequentes
  10. Fontes

O que é CRISPR, em poucas linhas

CRISPR é uma ferramenta que permite cortar o DNA num ponto escolhido. Ela foi adaptada de um sistema de defesa de bactérias contra vírus. Uma molécula-guia, feita de RNA, leva uma enzima de corte, a Cas9, até uma sequência específica do genoma. Ali, a enzima corta, e a célula repara o corte. Dependendo do desenho, esse reparo desliga um trecho do DNA ou muda a forma como um gene é lido.

A ferramenta transformou a pesquisa biológica na última década, porque tornou a edição genética mais simples, barata e precisa do que as técnicas anteriores. A pergunta que demorou mais a ser respondida foi outra: ela funciona, com segurança, como tratamento em pessoas? A primeira resposta regulatória chegou em 2023.

A doença que abriu o caminho

A doença falciforme e a beta-talassemia são condições hereditárias do sangue causadas por variantes no gene da beta-globina, uma das peças da hemoglobina. Na doença falciforme, as hemácias ficam rígidas e em forma de foice, entopem pequenos vasos e provocam crises de dor intensa, chamadas crises vaso-oclusivas. Na beta-talassemia grave, a produção de hemoglobina é tão baixa que a pessoa precisa de transfusões regulares por toda a vida.

Não são condições raras em escala global. A FDA estima que cerca de 100 mil pessoas vivam com doença falciforme nos Estados Unidos, e a MHRA fala em aproximadamente 15 mil no Reino Unido. Por décadas, o cuidado se apoiou em transfusões, medicamentos de controle e, para poucos, transplante de medula de um doador compatível.

A estratégia escolhida foi engenhosa. Em vez de corrigir a variante, os pesquisadores religaram a hemoglobina fetal, a versão que todos produzimos antes de nascer e que é desligada nos primeiros meses de vida. Um gene chamado BCL11A é o interruptor desse desligamento. Ao editar um trecho que controla o BCL11A nas células da medula, a hemoglobina fetal volta a ser produzida e compensa a hemoglobina defeituosa.

Esse é um bom exemplo de como uma condição hereditária bem compreendida, com uma via biológica clara, foi o primeiro alvo. Explicamos a lógica das variantes herdadas em mapeamento genético.

Os resultados que levaram à aprovação

O primeiro relato em pessoas saiu no New England Journal of Medicine, com dois pacientes, um com beta-talassemia e outro com doença falciforme. Mais de um ano depois do tratamento, ambos tinham altos níveis de edição na medula e no sangue, aumento da hemoglobina fetal e independência de transfusões. A pessoa com doença falciforme deixou de ter crises vaso-oclusivas EV C.

Os ensaios de fase 3, publicados em 2024, ampliaram esses números:

EnsaioPessoas tratadasResultado principalEvidência
Doença falciforme (CLIMB SCD-121)44, de 12 a 35 anos29 de 30 avaliados (97%) sem crises vaso-oclusivas graves por pelo menos 12 meses seguidos; 30 de 30 sem internação por essas crises EV B
Beta-talassemia dependente de transfusão (CLIMB THAL-111)52, de 12 a 35 anos32 de 35 avaliados (91%) sem transfusões por pelo menos 12 meses seguidos EV B

Os dois estudos foram de braço único, sem grupo placebo, o que é comum em doenças graves e raras em que o desfecho é claro. Nenhum caso de câncer foi registrado no período analisado.

As aprovações de 2023, o custo e o acesso

Em 16 de novembro de 2023, a agência regulatória do Reino Unido, a MHRA, anunciou a autorização do Casgevy para doença falciforme e beta-talassemia dependente de transfusão em pessoas a partir de 12 anos. Foi o primeiro medicamento licenciado no mundo a usar CRISPR EV A.

Em 8 de dezembro de 2023, a FDA, dos Estados Unidos, aprovou o Casgevy para doença falciforme com crises vaso-oclusivas recorrentes, também a partir de 12 anos, e o descreveu como a primeira terapia aprovada pela agência a usar CRISPR/Cas9. EV A.

No Brasil, a situação regulatória de terapias avançadas deve ser consultada diretamente na Anvisa. Uso e indicação são sempre decisão médica, em centros especializados.

O preço é uma das maiores barreiras. Na avaliação publicada em setembro de 2024, o NICE, órgão que avalia tecnologias para o sistema público da Inglaterra, informou o preço de lista de £1.651.000 por tratamento. O órgão recomendou a terapia para beta-talassemia dependente de transfusão por meio de um acordo de acesso gerenciado, citando incertezas sobre efeitos de longo prazo e qualidade de vida EV A.

O comitê do NICE também considerou que a terapia pode representar uma potencial cura para algumas pessoas, livrando-as das transfusões regulares, mesmo com as incertezas sobre o longo prazo.

Há outra barreira menos visível: a infraestrutura. Coleta de células, laboratório de edição, condicionamento e acompanhamento exigem centros de transplante capacitados. A doença falciforme é mais frequente em regiões com menos acesso a esses centros, o que torna a questão de equidade central para os próximos anos.

Como o tratamento funciona na prática

O Casgevy não é uma injeção que edita o corpo inteiro. É uma terapia celular feita sob medida, em várias etapas:

  1. Coleta. Células-tronco do sangue da própria pessoa são coletadas.
  2. Edição em laboratório. Essas células são editadas com CRISPR fora do corpo.
  3. Preparo. A pessoa passa por quimioterapia de alta intensidade, chamada condicionamento mieloablativo, para abrir espaço na medula.
  4. Infusão. As células editadas voltam ao corpo e repovoam a medula.

Como as células são da própria pessoa, não há rejeição. Mas o condicionamento é pesado. Segundo a FDA, os efeitos mais comuns incluem queda de plaquetas e de glóbulos brancos, feridas na boca, náusea, dores e febre com glóbulos brancos baixos. Os ensaios descrevem um perfil de segurança semelhante ao de um transplante de medula com células próprias. Não é um tratamento simples, e esse é um dos motivos para ele ser oferecido em centros especializados.

As próximas fronteiras

O Casgevy edita células fora do corpo. A fronteira seguinte é editar dentro do corpo, sem coleta nem quimioterapia.

A edição genética em embriões, que passaria alterações para as gerações seguintes, é outro assunto: não faz parte de nenhuma dessas terapias e segue fora da prática clínica.

O que ainda não sabemos

Se há histórico de doença do sangue ou de outra condição hereditária na família, o primeiro passo é o aconselhamento genético. O guia sobre histórico de saúde familiar ajuda a organizar essa conversa.

Como acompanhar

A Piantare se organiza como infraestrutura de saúde e longevidade: une num lugar só exames, DNA, wearables e hábitos, e traduz tudo em decisões para mais anos com saúde. O Piantare Helix é a peça genética: um exame de DNA de estilo de vida, com coleta de saliva em casa, 9 relatórios e mais de 200 resultados, além do Protocolo 90 no app. Custa R$ 997 ou 12x R$ 83,08 e inclui 6 meses do Piantare PRO. O Helix lê o DNA para orientar hábitos. Ele não edita genes nem diagnostica doenças hereditárias, que pedem avaliação clínica específica.

Perguntas frequentes

Qual foi a primeira terapia CRISPR aprovada?

O Casgevy (exagamglogene autotemcel), autorizado pela MHRA, do Reino Unido, em novembro de 2023, e pela FDA, dos Estados Unidos, em dezembro de 2023, para doença falciforme e beta-talassemia dependente de transfusão.

A terapia CRISPR cura a doença falciforme?

No ensaio de fase 3, 97% dos pacientes avaliados ficaram ao menos 12 meses sem crises vaso-oclusivas graves. Os pesquisadores evitam falar em cura definitiva até que o seguimento de longo prazo confirme a durabilidade.

Quanto custa o Casgevy?

O NICE informou um preço de lista de £1.651.000 por tratamento na Inglaterra, com acesso por acordo gerenciado. Preços variam entre países e sistemas de saúde.

A edição com CRISPR passa para os filhos?

Não no caso do Casgevy. A edição é feita em células do sangue, não em óvulos, espermatozoides ou embriões, então não é herdada.

O tratamento está disponível no Brasil?

A situação regulatória deve ser consultada na Anvisa. Mesmo onde é aprovado, o tratamento exige centros especializados e indicação médica.

Fontes

  1. Frangoul H, Altshuler D, Cappellini MD et al. CRISPR-Cas9 Gene Editing for Sickle Cell Disease and β-Thalassemia. New England Journal of Medicine, 2021;384(3):252-260. PMID 33283989. doi.org/10.1056/NEJMoa2031054 · Evidência C
  2. Frangoul H, Locatelli F, Sharma A et al. Exagamglogene Autotemcel for Severe Sickle Cell Disease. New England Journal of Medicine, 2024;390(18):1649-1662. PMID 38661449. doi.org/10.1056/NEJMoa2309676 · Evidência B
  3. Locatelli F, Lang P, Wall D et al. Exagamglogene Autotemcel for Transfusion-Dependent β-Thalassemia. New England Journal of Medicine, 2024;390(18):1663-1676. PMID 38657265. doi.org/10.1056/NEJMoa2309673 · Evidência B
  4. Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA). MHRA authorises world-first gene therapy that aims to cure sickle-cell disease and transfusion-dependent β-thalassemia, 16 nov. 2023. www.gov.uk/government/news/mhra-authorises-world-first-gene-therapy-that-aims-to-cure-sickle-cell-disease-and-transfusion-dependent-thalassemia · Evidência A
  5. U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA Approves First Gene Therapies to Treat Patients with Sickle Cell Disease, 8 dez. 2023. www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-first-gene-therapies-treat-patients-sickle-cell-disease · Evidência A
  6. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Exagamglogene autotemcel for treating transfusion-dependent beta-thalassaemia in people 12 years and over (TA1003), 11 set. 2024. www.nice.org.uk/guidance/ta1003 · Evidência A
  7. Gillmore JD, Gane E, Taubel J et al. CRISPR-Cas9 In Vivo Gene Editing for Transthyretin Amyloidosis. New England Journal of Medicine, 2021;385(6):493-502. PMID 34215024. doi.org/10.1056/NEJMoa2107454 · Evidência C
  8. Musunuru K, Grandinette SA, Wang X et al. Patient-Specific In Vivo Gene Editing to Treat a Rare Genetic Disease. New England Journal of Medicine, 2025;392(22):2235-2243. PMID 40373211. doi.org/10.1056/NEJMoa2504747 · Evidência C

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