Inovação · Edição genética
CRISPR: a primeira terapia de edição genética aprovada
Da descoberta em bactérias ao tratamento da doença falciforme: o que foi provado, quanto custa e o que vem a seguir.

A primeira terapia baseada em CRISPR aprovada no mundo é o Casgevy (exagamglogene autotemcel), autorizado pela agência britânica MHRA em novembro de 2023 e pela FDA em dezembro de 2023 para doença falciforme e beta-talassemia dependente de transfusão. No ensaio de fase 3 em doença falciforme, 29 de 30 pacientes avaliados (97%) ficaram ao menos 12 meses sem crises vaso-oclusivas graves.
Neste texto
- O que é CRISPR, em poucas linhas
- A doença que abriu o caminho
- Os resultados que levaram à aprovação
- As aprovações de 2023, o custo e o acesso
- Como o tratamento funciona na prática
- As próximas fronteiras
- O que ainda não sabemos
- Como acompanhar
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é CRISPR, em poucas linhas
CRISPR é uma ferramenta que permite cortar o DNA num ponto escolhido. Ela foi adaptada de um sistema de defesa de bactérias contra vírus. Uma molécula-guia, feita de RNA, leva uma enzima de corte, a Cas9, até uma sequência específica do genoma. Ali, a enzima corta, e a célula repara o corte. Dependendo do desenho, esse reparo desliga um trecho do DNA ou muda a forma como um gene é lido.
A ferramenta transformou a pesquisa biológica na última década, porque tornou a edição genética mais simples, barata e precisa do que as técnicas anteriores. A pergunta que demorou mais a ser respondida foi outra: ela funciona, com segurança, como tratamento em pessoas? A primeira resposta regulatória chegou em 2023.
A doença que abriu o caminho
A doença falciforme e a beta-talassemia são condições hereditárias do sangue causadas por variantes no gene da beta-globina, uma das peças da hemoglobina. Na doença falciforme, as hemácias ficam rígidas e em forma de foice, entopem pequenos vasos e provocam crises de dor intensa, chamadas crises vaso-oclusivas. Na beta-talassemia grave, a produção de hemoglobina é tão baixa que a pessoa precisa de transfusões regulares por toda a vida.
Não são condições raras em escala global. A FDA estima que cerca de 100 mil pessoas vivam com doença falciforme nos Estados Unidos, e a MHRA fala em aproximadamente 15 mil no Reino Unido. Por décadas, o cuidado se apoiou em transfusões, medicamentos de controle e, para poucos, transplante de medula de um doador compatível.
A estratégia escolhida foi engenhosa. Em vez de corrigir a variante, os pesquisadores religaram a hemoglobina fetal, a versão que todos produzimos antes de nascer e que é desligada nos primeiros meses de vida. Um gene chamado BCL11A é o interruptor desse desligamento. Ao editar um trecho que controla o BCL11A nas células da medula, a hemoglobina fetal volta a ser produzida e compensa a hemoglobina defeituosa.
Esse é um bom exemplo de como uma condição hereditária bem compreendida, com uma via biológica clara, foi o primeiro alvo. Explicamos a lógica das variantes herdadas em mapeamento genético.
Os resultados que levaram à aprovação
O primeiro relato em pessoas saiu no New England Journal of Medicine, com dois pacientes, um com beta-talassemia e outro com doença falciforme. Mais de um ano depois do tratamento, ambos tinham altos níveis de edição na medula e no sangue, aumento da hemoglobina fetal e independência de transfusões. A pessoa com doença falciforme deixou de ter crises vaso-oclusivas EV C.
Os ensaios de fase 3, publicados em 2024, ampliaram esses números:
| Ensaio | Pessoas tratadas | Resultado principal | Evidência |
|---|---|---|---|
| Doença falciforme (CLIMB SCD-121) | 44, de 12 a 35 anos | 29 de 30 avaliados (97%) sem crises vaso-oclusivas graves por pelo menos 12 meses seguidos; 30 de 30 sem internação por essas crises | EV B |
| Beta-talassemia dependente de transfusão (CLIMB THAL-111) | 52, de 12 a 35 anos | 32 de 35 avaliados (91%) sem transfusões por pelo menos 12 meses seguidos | EV B |
Os dois estudos foram de braço único, sem grupo placebo, o que é comum em doenças graves e raras em que o desfecho é claro. Nenhum caso de câncer foi registrado no período analisado.
As aprovações de 2023, o custo e o acesso
Em 16 de novembro de 2023, a agência regulatória do Reino Unido, a MHRA, anunciou a autorização do Casgevy para doença falciforme e beta-talassemia dependente de transfusão em pessoas a partir de 12 anos. Foi o primeiro medicamento licenciado no mundo a usar CRISPR EV A.
Em 8 de dezembro de 2023, a FDA, dos Estados Unidos, aprovou o Casgevy para doença falciforme com crises vaso-oclusivas recorrentes, também a partir de 12 anos, e o descreveu como a primeira terapia aprovada pela agência a usar CRISPR/Cas9. EV A.
No Brasil, a situação regulatória de terapias avançadas deve ser consultada diretamente na Anvisa. Uso e indicação são sempre decisão médica, em centros especializados.
O preço é uma das maiores barreiras. Na avaliação publicada em setembro de 2024, o NICE, órgão que avalia tecnologias para o sistema público da Inglaterra, informou o preço de lista de £1.651.000 por tratamento. O órgão recomendou a terapia para beta-talassemia dependente de transfusão por meio de um acordo de acesso gerenciado, citando incertezas sobre efeitos de longo prazo e qualidade de vida EV A.
O comitê do NICE também considerou que a terapia pode representar uma potencial cura para algumas pessoas, livrando-as das transfusões regulares, mesmo com as incertezas sobre o longo prazo.
Há outra barreira menos visível: a infraestrutura. Coleta de células, laboratório de edição, condicionamento e acompanhamento exigem centros de transplante capacitados. A doença falciforme é mais frequente em regiões com menos acesso a esses centros, o que torna a questão de equidade central para os próximos anos.
Como o tratamento funciona na prática
O Casgevy não é uma injeção que edita o corpo inteiro. É uma terapia celular feita sob medida, em várias etapas:
- Coleta. Células-tronco do sangue da própria pessoa são coletadas.
- Edição em laboratório. Essas células são editadas com CRISPR fora do corpo.
- Preparo. A pessoa passa por quimioterapia de alta intensidade, chamada condicionamento mieloablativo, para abrir espaço na medula.
- Infusão. As células editadas voltam ao corpo e repovoam a medula.
Como as células são da própria pessoa, não há rejeição. Mas o condicionamento é pesado. Segundo a FDA, os efeitos mais comuns incluem queda de plaquetas e de glóbulos brancos, feridas na boca, náusea, dores e febre com glóbulos brancos baixos. Os ensaios descrevem um perfil de segurança semelhante ao de um transplante de medula com células próprias. Não é um tratamento simples, e esse é um dos motivos para ele ser oferecido em centros especializados.
As próximas fronteiras
O Casgevy edita células fora do corpo. A fronteira seguinte é editar dentro do corpo, sem coleta nem quimioterapia.
- Edição no fígado, por via intravenosa. Em 2021, um estudo de fase 1 com 6 pessoas com amiloidose hereditária por transtirretina usou nanopartículas de lipídio para levar o CRISPR até o fígado. Com a dose mais alta, a proteína causadora da doença caiu 87% em média em 28 dias EV C. Estudos maiores estão em andamento.
- Terapia sob medida para uma pessoa. Em 2025, o New England Journal of Medicine relatou o caso de um bebê com deficiência grave de CPS1, uma doença metabólica rara. Uma terapia de edição de bases, uma variação mais precisa do CRISPR que troca uma letra do DNA sem cortar a dupla fita, foi desenhada para a variante dele e aplicada após aprovação regulatória. Nas semanas seguintes, ele pôde receber mais proteína na dieta com menos medicação, sem eventos adversos graves EV C. É um único caso, e os autores pedem acompanhamento mais longo.
A edição genética em embriões, que passaria alterações para as gerações seguintes, é outro assunto: não faz parte de nenhuma dessas terapias e segue fora da prática clínica.
O que ainda não sabemos
- Durabilidade. Os ensaios de fase 3 têm seguimento mediano de cerca de 20 meses. Os pacientes continuam sendo acompanhados para saber se o efeito dura décadas.
- Efeitos de longo prazo. Edições fora do alvo e efeitos do condicionamento sobre fertilidade e saúde futura seguem em observação.
- Edição dentro do corpo. Os resultados in vivo ainda vêm de estudos pequenos ou de casos únicos.
- Escala e preço. Ainda não está claro como levar terapias de mais de um milhão de libras a milhões de pessoas.
Se há histórico de doença do sangue ou de outra condição hereditária na família, o primeiro passo é o aconselhamento genético. O guia sobre histórico de saúde familiar ajuda a organizar essa conversa.
Como acompanhar
A Piantare se organiza como infraestrutura de saúde e longevidade: une num lugar só exames, DNA, wearables e hábitos, e traduz tudo em decisões para mais anos com saúde. O Piantare Helix é a peça genética: um exame de DNA de estilo de vida, com coleta de saliva em casa, 9 relatórios e mais de 200 resultados, além do Protocolo 90 no app. Custa R$ 997 ou 12x R$ 83,08 e inclui 6 meses do Piantare PRO. O Helix lê o DNA para orientar hábitos. Ele não edita genes nem diagnostica doenças hereditárias, que pedem avaliação clínica específica.
Perguntas frequentes
Qual foi a primeira terapia CRISPR aprovada?
O Casgevy (exagamglogene autotemcel), autorizado pela MHRA, do Reino Unido, em novembro de 2023, e pela FDA, dos Estados Unidos, em dezembro de 2023, para doença falciforme e beta-talassemia dependente de transfusão.
A terapia CRISPR cura a doença falciforme?
No ensaio de fase 3, 97% dos pacientes avaliados ficaram ao menos 12 meses sem crises vaso-oclusivas graves. Os pesquisadores evitam falar em cura definitiva até que o seguimento de longo prazo confirme a durabilidade.
Quanto custa o Casgevy?
O NICE informou um preço de lista de £1.651.000 por tratamento na Inglaterra, com acesso por acordo gerenciado. Preços variam entre países e sistemas de saúde.
A edição com CRISPR passa para os filhos?
Não no caso do Casgevy. A edição é feita em células do sangue, não em óvulos, espermatozoides ou embriões, então não é herdada.
O tratamento está disponível no Brasil?
A situação regulatória deve ser consultada na Anvisa. Mesmo onde é aprovado, o tratamento exige centros especializados e indicação médica.
Fontes
- Frangoul H, Altshuler D, Cappellini MD et al. CRISPR-Cas9 Gene Editing for Sickle Cell Disease and β-Thalassemia. New England Journal of Medicine, 2021;384(3):252-260. PMID 33283989. doi.org/10.1056/NEJMoa2031054 · Evidência C
- Frangoul H, Locatelli F, Sharma A et al. Exagamglogene Autotemcel for Severe Sickle Cell Disease. New England Journal of Medicine, 2024;390(18):1649-1662. PMID 38661449. doi.org/10.1056/NEJMoa2309676 · Evidência B
- Locatelli F, Lang P, Wall D et al. Exagamglogene Autotemcel for Transfusion-Dependent β-Thalassemia. New England Journal of Medicine, 2024;390(18):1663-1676. PMID 38657265. doi.org/10.1056/NEJMoa2309673 · Evidência B
- Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA). MHRA authorises world-first gene therapy that aims to cure sickle-cell disease and transfusion-dependent β-thalassemia, 16 nov. 2023. www.gov.uk/government/news/mhra-authorises-world-first-gene-therapy-that-aims-to-cure-sickle-cell-disease-and-transfusion-dependent-thalassemia · Evidência A
- U.S. Food and Drug Administration (FDA). FDA Approves First Gene Therapies to Treat Patients with Sickle Cell Disease, 8 dez. 2023. www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-approves-first-gene-therapies-treat-patients-sickle-cell-disease · Evidência A
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Exagamglogene autotemcel for treating transfusion-dependent beta-thalassaemia in people 12 years and over (TA1003), 11 set. 2024. www.nice.org.uk/guidance/ta1003 · Evidência A
- Gillmore JD, Gane E, Taubel J et al. CRISPR-Cas9 In Vivo Gene Editing for Transthyretin Amyloidosis. New England Journal of Medicine, 2021;385(6):493-502. PMID 34215024. doi.org/10.1056/NEJMoa2107454 · Evidência C
- Musunuru K, Grandinette SA, Wang X et al. Patient-Specific In Vivo Gene Editing to Treat a Rare Genetic Disease. New England Journal of Medicine, 2025;392(22):2235-2243. PMID 40373211. doi.org/10.1056/NEJMoa2504747 · Evidência C