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Ayahuasca: o que diz a ciência, do ensaio brasileiro aos limites
O estudo da UFRN que virou referência mundial, o que as revisões concluem, as interações que a ciência documenta e o que a lei permite.

A ayahuasca reduziu sintomas de depressão resistente em um ensaio controlado com placebo feito na UFRN e publicado na Psychological Medicine em 2019: 64% dos pacientes responderam no sétimo dia, contra 27% no placebo. O estudo teve 29 participantes e ainda precisa ser replicado. No Brasil, a ayahuasca tem uso religioso reconhecido, mas não é autorizada como tratamento.
Neste texto
- O que é a ayahuasca
- O ensaio brasileiro que virou referência
- O que as revisões concluem
- O que ainda não sabemos
- Interações e quem fica de fora dos estudos
- O que diz a lei no Brasil (outubro de 2026)
- A base que já tem evidência hoje
- Como seguir daqui
- Perguntas frequentes
- Fontes
O que é a ayahuasca
A ayahuasca é uma bebida de origem amazônica, preparada tradicionalmente com duas plantas: o cipó Banisteriopsis caapi e as folhas de Psychotria viridis. As folhas contêm DMT, uma substância psicodélica. Sozinho, o DMT tomado por via oral é destruído no intestino por uma enzima chamada MAO. O cipó contém beta-carbolinas, como a harmina, que inibem essa enzima. É essa combinação que permite o efeito.
Esse detalhe químico não é curiosidade. Ele explica boa parte das questões de segurança, porque a ayahuasca age, durante algumas horas, como um inibidor da MAO, a mesma classe de alguns antidepressivos antigos.
No Brasil, a bebida tem uma história longa de uso em contexto religioso, em tradições indígenas e em religiões como o Santo Daime e a União do Vegetal. Isso fez do país um lugar central para a pesquisa científica sobre ela.
Grupos de pesquisa em universidades públicas, como a UFRN e a USP de Ribeirão Preto, estudam a ayahuasca há anos, com protocolos aprovados por comitês de ética. Esse trabalho é o que permite separar o que se observa em relatos pessoais, muitas vezes marcantes, do que se sustenta quando comparado com um grupo controle. É essa separação que você vai encontrar nas próximas seções: o que foi medido, com quantas pessoas, por quanto tempo e com quais limites.
O ensaio brasileiro que virou referência
Em 2019, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte publicaram na Psychological Medicine o primeiro ensaio controlado com placebo a testar uma substância psicodélica em depressão resistente. Foi um marco internacional, e foi feito no Brasil.
- Quem participou: 29 adultos com depressão resistente, ou seja, sem resposta a tratamentos anteriores.
- Como foi: uma única sessão, em ambiente hospitalar preparado, com ayahuasca ou com um placebo desenhado para imitar gosto e cor. Nem os pacientes nem os avaliadores sabiam quem recebeu o quê.
- O que se mediu: sintomas de depressão nos dias 1, 2 e 7.
| Dia 7 após a sessão | Ayahuasca | Placebo |
|---|---|---|
| Resposta (queda de pelo menos metade dos sintomas) | 64% | 27% |
| Remissão | 36% | 7% |
Fonte: Palhano-Fontes et al., Psychological Medicine, 2019.
A diferença na resposta foi significativa. A diferença na remissão ficou perto do limite estatístico, sem alcançá-lo. O efeito apareceu já no primeiro dia e cresceu até o sétimo. Os autores destacam que a ayahuasca foi dada em um ambiente apropriado, com equipe preparada, e esse contexto faz parte do resultado.
O que as revisões concluem
Um único estudo pequeno, por melhor que seja, não basta. Por isso vale olhar para as revisões.
- Revisão de revisões, 2018. Pesquisadores ligados à USP de Ribeirão Preto analisaram revisões sistemáticas sobre psicodélicos serotoninérgicos. Concluíram que a ayahuasca reduziu sintomas em depressão resistente, mas que poucos estudos eram randomizados, a maioria tinha amostras pequenas e duração curta, e faltam estudos de longo prazo.
- Dependência química, 2021. Uma revisão sistemática atualizada encontrou estudos em animais e estudos observacionais em humanos sugerindo redução no uso de substâncias. Os próprios autores lembram que estudos observacionais não permitem afirmar causa e efeito, que não há padronização da bebida e que faltam ensaios randomizados.
- Marcadores biológicos, 2022. Uma revisão sobre marcadores inflamatórios e neurotróficos em estudos com cetamina e ayahuasca encontrou resultados contraditórios e inconclusivos.
O retrato honesto é este: sinais promissores, um ensaio controlado relevante e muita coisa ainda por confirmar.
O que ainda não sabemos
- Se o resultado se repete. O ensaio da UFRN ainda não foi replicado em escala maior.
- Quanto tempo dura. O seguimento controlado foi de uma semana.
- Composição variável. A bebida não é padronizada. A quantidade de DMT e de beta-carbolinas varia de preparo para preparo, o que dificulta comparar estudos.
- Papel do contexto. É difícil separar o efeito da substância do efeito do ambiente, da preparação e da expectativa.
- Efeitos desagradáveis. Vômitos são comuns e fazem parte da experiência relatada. Algumas pessoas vivem sofrimento psicológico intenso durante o efeito.
Há ainda uma pergunta prática que a ciência não respondeu: como seria levar um resultado desses para o sistema de saúde, com segurança, triagem e acompanhamento. No Brasil, a ayahuasca não tem registro como medicamento.
Interações e quem fica de fora dos estudos
Como a ayahuasca inibe a MAO, a ciência documenta cuidados importantes. Eles aparecem aqui como informação de segurança, e não como orientação de uso.
- Antidepressivos que agem na serotonina. A combinação de inibidores da MAO com ISRS e outras substâncias serotoninérgicas está entre as causas descritas de síndrome serotoninérgica, segundo revisão do New England Journal of Medicine de 2005.
- Lítio. Uma análise de relatos online de 2021 encontrou convulsões em 47% de 62 relatos de uso de psicodélicos clássicos por pessoas que tomavam lítio. É evidência de baixa qualidade, com sinal forte.
- Quem os estudos excluem: pessoas com histórico pessoal ou familiar de psicose ou transtorno bipolar e pessoas com doença cardíaca relevante.
Sinais que pedem atendimento imediato: febre alta com rigidez muscular e agitação, confusão intensa, dor no peito ou palpitação forte, convulsão ou pensamentos de se machucar.
Se você toma antidepressivo, nunca interrompa por conta própria por nenhum motivo. O remédio psiquiátrico é um tratamento legítimo, e qualquer mudança é conduzida pelo médico. Veja como parar o antidepressivo com segurança.
O que diz a lei no Brasil (outubro de 2026)
A Resolução CONAD nº 1/2010 reconhece o uso religioso da ayahuasca no Brasil. A mesma resolução veda a comercialização, o uso terapêutico não autorizado e a propaganda. O DMT isolado continua proscrito, na lista F2 da Portaria SVS/MS 344/1998.
Na prática, isso significa duas coisas. A primeira: a lei protege uma tradição religiosa, e não uma terapia. A segunda: retiros, cerimônias ou pacotes apresentados como tratamento para depressão, ansiedade ou dependência não têm respaldo legal nem científico como tratamento. A pesquisa acontece em universidades, com protocolo aprovado por comitê de ética. O panorama completo das outras substâncias está em psicodélicos são legais no Brasil?.
A base que já tem evidência hoje
Muita gente chega à ayahuasca buscando alívio para um sofrimento real. Enquanto a ciência sobre ela amadurece, há caminhos com evidência sólida, disponíveis agora e sem custo, que se somam ao tratamento com o seu médico:
- Movimento. Uma metanálise com 218 ensaios, publicada no BMJ em 2024, encontrou reduções moderadas de sintomas de depressão com caminhada ou corrida, ioga e treino de força. Veja exercício para depressão.
- Psicoterapia. Combinada ao remédio, supera cada abordagem isolada em metanálises.
- Sono e respiração. Dormir bem e saber baixar a ativação do corpo ajudam o humor. Veja respiração para ansiedade.
- Pertencimento. Parte do que as pessoas encontram em comunidades religiosas é vínculo. Conexões sociais também são cuidado.
Como seguir daqui
Para entender onde você está nesses temas, faça o quiz de 3 minutos sobre mente e novos tratamentos. O material sem custo Mapa da evidência 2026 organiza o que ayahuasca, psilocibina, MDMA, cetamina e outras substâncias já mostraram, com nível de evidência e situação legal no Brasil e no mundo. Leve as suas dúvidas para a consulta.
Este conteúdo é educativo e não substitui consulta. Não interrompa nem altere medicamentos sem orientação do seu médico.
Se você está em sofrimento ou pensando em se machucar, ligue 188 (CVV, 24 h) ou 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
Ayahuasca cura depressão?
Não há evidência de cura. Um ensaio da UFRN com 29 pacientes mostrou redução de sintomas de depressão resistente em uma semana, mas o estudo é pequeno e ainda não foi replicado em escala maior.
Ayahuasca é legal no Brasil?
O uso religioso é reconhecido pela Resolução CONAD nº 1/2010, que veda a comercialização, a propaganda e o uso terapêutico não autorizado. O DMT isolado é proscrito.
Quem toma antidepressivo pode tomar ayahuasca?
A ayahuasca inibe a enzima MAO, e a ciência documenta risco de síndrome serotoninérgica na combinação de inibidores da MAO com antidepressivos serotoninérgicos. Nunca interrompa o antidepressivo por conta própria.
Retiro de ayahuasca é tratamento?
Não. A lei brasileira não autoriza o uso terapêutico da ayahuasca, e a pesquisa científica acontece em universidades, com protocolos aprovados por comitês de ética.
Como a ayahuasca age no cérebro?
O DMT age principalmente em receptores de serotonina do tipo 5-HT2A. As beta-carbolinas do cipó inibem a enzima MAO, o que permite que o DMT tenha efeito quando ingerido.
Fontes
- Palhano-Fontes F et al. Rapid antidepressant effects of the psychedelic ayahuasca in treatment-resistant depression: a randomized placebo-controlled trial. Psychological Medicine, 2019;49:655-63. doi.org/10.1017/S0033291718001356 · Evidência B
- Dos Santos RG et al. Efficacy, tolerability, and safety of serotonergic psychedelics for the management of mood, anxiety, and substance-use disorders: a systematic review of systematic reviews. Expert Review of Clinical Pharmacology, 2018;11:889-902. doi.org/10.1080/17512433.2018.1511424 · Evidência A
- Rodrigues LS et al. Effects of ayahuasca and its alkaloids on substance use disorders: an updated (2016-2020) systematic review of preclinical and human studies. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, 2022;272:541-56. doi.org/10.1007/s00406-021-01267-7 · Evidência B
- Rossi GN et al. The effects of ketamine and classic hallucinogens on neurotrophic and inflammatory markers in unipolar treatment-resistant depression: a systematic review of clinical trials. European Archives of Psychiatry and Clinical Neuroscience, 2023;273:129-55. doi.org/10.1007/s00406-022-01460-2 · Evidência B
- Boyer EW, Shannon M. The serotonin syndrome. New England Journal of Medicine, 2005;352:1112-20. doi.org/10.1056/NEJMra041867 · Evidência B
- Nayak SM et al. Classic Psychedelic Coadministration with Lithium, but Not Lamotrigine, is Associated with Seizures: An Analysis of Online Psychedelic Experience Reports. Pharmacopsychiatry, 2021;54:240-5. doi.org/10.1055/a-1524-2794 · Evidência C
- Noetel M et al. Effect of exercise for depression: systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. BMJ, 2024;384:e075847. doi.org/10.1136/bmj-2023-075847 · Evidência A